A culpa é de Pareto
Experiência traumática ler o artigo publicado recentemente pela revista Business Week sob o título: Por que o serviço é péssimo (em inglês Why Service Stinks). A revista quantifica e detalha o que se percebe o tempo todo, tanto nos EUA como nos seus países-satélites (em termos de negócios e de marketing, como se torna cada vez ainda mais o nosso País). Bons serviços ou apenas serviços, ponto são cada vez mais raros no cotidiano das pessoas. São filas cada vez maiores, nos bancos, nas companhias aéreas; sistemas de atendimento telefônico que parecem ter as cartas marcadas para não atender, com linhas ou atendentes ocupadas, e gravações tautológicas, que fazem com que você depois de digitar todos os números indicados volte ao ponto de partida.
Essas frustrações escreve a jornalista que assina o artigo, Diane Brady não são apenas resultado da falta de vontade das empresas em agradar aos clientes. Mas, cada vez mais, o resultado de uma decisão deliberada de conceder um mínimo de serviços a certas pessoas porque simplesmente elas não valem mais do que isso como clientes.
Números: uma empresa de serviços de eletricidade mantém 6 pessoas para atender aos seus 350 clientes mais importantes; outras 6 para atender aos 700 clientes seguintes e apenas 2 para os próximos 30 mil clientes. Para cuidar dos 350 mil usuários da eletricidade doméstica, um número de telefone 0800 com as secretárias eletrônicas de praxe.
Essa situação de acordo com a análise da revista é consequência de uma desafortunada conjunção de fatores. De um lado, a evolução tecnológica produziu equipamento e softwares capazes de analisar, com grau de precisão até então não alcançado, quanto custa atender a um cliente específico, em termos do custo empregado/hora envolvido, mais o overhead da empresa. Do outro, as exigências cada vez maiores da competição global, para cortar ou reduzir custos.
Nos serviços, como em qualquer outra atividade, vale o tradicional Princípio de Pareto: de que 80% dos negócios (e dos lucros) são realizados com 20% dos clientes. Do outro lado da equação antiga, 80% dos clientes só produzem 20% do resultado. É concebível, portanto, que, no fim da linha, estejam 1% ou 2% quem sabe, até, um pouco mais que não trazem qualquer resultado e até dão prejuízo. Redundam no Princípio de Itararé, que uso em aulas e palestras, do grande humorista gaúcho Apparicio Torelly, há muito falecido: De onde a gente menos espera é que não sai nada mesmo...
Há poucos dias conversava sobre minhas preocupações com o futuro do marketing de serviços com importante executivo da área financeira, que me tentava tranquilizar, ponderando que mil e poucos clientes insatisfeitos, entre os seus milhões de clientes não chegavam a representar uma fração substancial de 1% e que, portanto, de acordo com outro conceito matemático o dos custos marginais seria intoleravelmente custoso procurar levar o nível de insatisfação a percentuais ainda mais baixos.
Será mesmo?
Na reportagem da BW, uma empresa de investimentos calculou que uma chamada telefônica atendida pelo seu sistema automático custa menos de US$ 1, incluindo os custos de pesquisa e desenvolvimento. O mesmo telefonema, se for atendido por um funcionário, terá o custo médio de US$ 13. Só que lendo um outro artigo, na Forbes foi através de um raciocínio parecido quanto custava a intervenção humana na fabricação de artigos de vestuário, na França e na Itália, e premidos pela competição selvagem que começaram a pipocar, naqueles países de primeiro mundo, unidades de produção clandestinas, que utilizam exclusivamente trabalho escravo, e têm, naturalmente, custos mais baixos...
Mas, no momento, parece que a onda é tratar bem quem gasta muito e maltratar ou não tratar quem gasta pouco ou nada. Basta tirar o fone do gancho e tentar ligar para ... (escolha). Ninguém sabe ainda quanto tempo vai durar essa nova ilusão.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro





