A batalha de denúncias entre ACM e Jader Barbalho, o tiroteio interpartidário, a ameaça de criação de CPIs para apurar corrupção no governo, a volta do dossiê Cayman ao noticiário, enfim, a lama que jorra dos porões da velha política criam dois tipos de sentimento junto às camadas sociais: repúdio aos políticos e governantes, de um lado; engajamento num projeto de mudanças, de outro. Há muito tempo, percebe-se um vácuo político no meio da sociedade, resultante do distanciamento do povo da classe política. A crise está aumentando a distância. Os maiores prejuízos são debitados ao situacionismo governista, no qual se inserem os principais agentes do lodaçal em exibição.
As consequências podem ser claramente mapeadas. O primeiro a perder com tudo isso é o governo de Fernando Henrique. Por mais que não queira se envolver, a figura presidencial também acaba atingida, porque os atores do jogo bruto são seus parceiros de governo. Perde o presidente do Senado, Jader Barbalho, com a bateria de acusações que atingem seu perfil. E a perda implicará fragilidade no comando do Congresso. Perde o senador Antonio Carlos Magalhães, que passa a ter respostas duras, com resgate de uma história ligada aos militares. Perdem os três grandes partidos da base governista, o PSDB, o PMDB e o PFL, que estão no meio do tiroteio. Perde a instituição política, cuja imagem, já abalada por uma bateria ininterrupta de denúncias envolvendo seus integrantes, fica ainda mais enfraquecida.
Há alguém que ganha com a crise? Os oposicionistas, sejam eles de qualquer coloração. Por exemplo, ganha Itamar Franco, que, como governador de Minas Gerais e integrante do PMDB, faz contundente oposição ao governo. Ganham as oposições partidárias, particularmente os líderes dos partidos e presidenciáveis Ciro Gomes e Lula. Ganham as organizações não-governamentais, que passam a fortalecer sua missão de articulação e mobilização das forças sociais. Ganham as administrações estaduais e municipais que estão distantes do Planalto Central, principalmente aquelas comandadas por perfis assépticos, de passado limpo e vida decente. Ganha força o discurso dos núcleos formadores de opinião, geralmente integrados por quadros mais qualificados, cujo poder crítico se acentua nos momentos de tensão política.
O que poderá fazer o governo para desviar as balas das batalhas do Planalto Central? Uma coisa óbvia, que, infelizmente, a visão capenga dos analistas governamentais não consegue enxergar: desplanaltizar a administração. Isto é, o presidente precisa sair do meio do tiroteio, correr para junto das massas, inaugurar obras, aproximar-se do povo, circular pelo País, passar a idéia de que está examinando as coisas certas e erradas, tomando providências, cobrando, apontando, exigindo. O País quer sentir a figura do pai, com autoridade para mandar, com senso de responsabilidade para tomar as dores do povo sofrido. O que diabos faz tanto Fernando Henrique em Brasília, se há longos caminhos para percorrer, aglomerações de pessoas honestas para ouvir e sentir, nos longínquos espaços do norte, do sul, do nordeste e do oeste? Por que seus ministros ficam brigando entre si, quando deveriam brigar pelos reclamos das populações?
O que os políticos deveriam fazer para tentar buscar a velha credibilidade perdida? Abrir uma nova agenda positiva para o País, reiniciando as discussões nas Casas parlamentares, retirando do baú do esquecimento projetos e temas fundamentais, como a municipalização da segurança pública, a tão decantada reforma tributária, o sistema penitenciário, os planos de saúde. O novo presidente da Câmara, Aécio Neves, coitado, parece perdido, sem saber para onde ir. Jader Barbalho, presidente do Senado, deveria, de uma vez por todas, pedir ao Ministério Público e aos Tribunais o atestado de boa conduta, sob pena de continuar no centro da crise. ACM tem um projeto em mente: desqualificar figuras que estão na cúpula do PMDB, partido que quer ver afastado do centro do governo. Nesse sentido, conta com o apoio discreto do PFL. Por isso, sob o aspecto partidário, a crise não tem cronograma para acabar. Vai até as margens das eleições.
E as oposições? Estão rindo de satisfação e contemplando a cena de camarote de primeira classe. Só perderão as eleições se o estrelismo continuar a ser o calcanhar-de-aquiles de Ciro, Lula e Itamar. O que é bem provável ocorrer. E o povo? Ora, o povo, nesse fogo cruzado, é apenas um detalhe. E assim balança a velha política.
GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e analista político. E-mail: [email protected]

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