A crise provocada pelo neoliberalismo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Enio Verri 
No Brasil, deveríamos
investir pesadamente em
infra-estrutura, em
especial nas habitações
populares. Isso é fundamental
e vai criar a dinâmica
necessária para o nosso
desenvolvimento. Precisamos
também baixar os juros para
incentivar os investimentos
produtivos e o consumo interno
A crise mundial é fruto de décadas de políticas neoliberais que levaram à internacionalização do capital financeiro e causaram o enfraquecimento do Estado. Evidentemente, ela vai atingir os países sul-americanos e o momento agora é de pensar em medidas corretivas para garantir empregos e continuar investindo em políticas sociais.
O Brasil, que antes da eleição de Lula à Presidência da República, tinha uma política econômica frágil, sujeita a qualquer instabilidade econômica, hoje tem um quadro estruturado e mais sólido. Mas não estamos imunes à crise. Comemoramos um bom resultado do PIB no terceiro trimestre, 6,8%, no entanto, nossa política econômica não está consolidada. É evidente que os resultados mostram que estamos fazendo a lição de casa, o brasileiro está mais confiante, os números apontam que mais empregos foram gerados. Entretanto, é bom mencionar que grande parte das nossas receitas vêm da exportação de comodities. Portanto, sujeitas às variações cambiais e o efeito multiplicador disso na economia vai ser muito grande.
Antes de falar das medidas corretivas, gostaria de lembrar que a crise não surgiu ontem. Ela começou a nascer com as políticas neoliberais defendidas até então pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial. A chamada globalização não globalizou o capital produtivo. Na verdade, internacionalizou o capital financeiro, tornando o mundo refém das variações e transações de capitais. Analisemos rapidamente o que aconteceu, por exemplo, na América do Sul nas décadas de 70 e 80 até o final da década de 90. Foi um gigantesco processo de internacionalização e concentração do capital, chegando ao ápice do investimento financeiro.
No Brasil, por exemplo, no setor de varejo, houve um processo de concentração tão grande como o dos bancos. Mas os investimentos não abriram novas empresas, ou seja, empresas estrangeiras compraram empresas que concorriam com elas. Não foram geradas novas tecnologias, nem mais impostos e, o que é pior, aumentou o desemprego. Quem não seguia à risca a política neoliberal era considerado país atrasado, não recebia investimentos. E essa política já havia produzido um remédio amargo nos Estados Unidos e Inglaterra. A Argentina, por exemplo, acabou cedendo a exigência da dolarização da sua economia e o resultado todo mundo conhece.
No Brasil, graças à ação vigorosa dos movimentos sociais e a eleição do presidente Lula, se deu um basta a essa malfadada aventura política, de dolarização da nossa moeda. Agora o mundo está experimentando o remédio amargo. Por enquanto, não existe antídoto, mas com bom senso podemos enfrentar a crise soberanamente. Nossas reservas internacionais permitem que tenhamos mais fôlego e as atuais políticas, responsáveis, nos dão caminhos, coisas que anteriormente não tínhamos. Dependíamos da tutela do Fundo Monetário Internacional.
É evidente que cada país sul-americano vai adotar a sua própria política econômica para combater os efeitos da crise. No Brasil, ao meu modo de ver, deveríamos investir pesadamente em infra-estrutura. Dentro disso estão as habitações populares. Isso é fundamental, porque a infra-estrutura vai criar a dinâmica necessária para o nosso desenvolvimento. Precisamos também baixar os juros para incentivar os investimentos produtivos e o consumo interno. São medidas corretivas, mas não a solução. Esta virá de acordo com o comportamento do mercado e as próximas medidas que serão adotadas ao longo do próximo período.
Apesar de tudo, acredito que a crise vai aprofundar o processo de integração sul-americano e vai permitir também que se faça a revisão do papel dos Estados Unidos na nova ordem econômica mundial. Mas a integração sul-americana não pode ser somente com o fluxo comercial, ela tem que ser política também.
ENIO VERRI é secretário de Estado do Planejamento e Coordenação Geral do Paraná


