A crise nossa de cada dia
Renan Calheiros
A aridez do planalto central em setembro vem contribuindo para desidratar algumas cabeças. Uma semana após o lançamento da ficção denominada ‘‘Avança Brasil’’, pela qual o governo pretende retomar o crescimento, retornam ao palco os mesmos personagens que desde outubro do ano passado nutrem cirurgicamente as crises internas do governo.
O falso antagonismo ‘‘desenvolvimentismo’’ versus ‘‘monetarismo’’ vem sendo utilizado como uma cortina de fumaça que serve de biombo para ocultar a disputa pelo controle da política econômica com vistas à sucessão presidencial. Lá atrás, em outubro, o script para criticar a política econômica coube ao ex-ministro ‘‘desenvolvimentista’’ Luis Carlos Mendonça de Barros, ejetado do governo por conversas pouco ortodoxas ao telefone.
Na última semana, o novo porta-voz dos autodenominados ‘‘desenvolvimentistas’’ foi o ex-ministro Clóvis Carvalho que, publicamente, criticou o ministro da Fazenda. A sua histórica proximidade ao presidente da República obrigou a todos a uma leitura óbvia: o ministro Malan vinha perdendo força no governo. Carvalho, escalado ou não para dar o recado, acabou sendo vítima de sua ousadia e saiu do cargo apenas um mês e meio depois da posse.
Não resta nenhuma dúvida de que a política econômica, hoje voltada exclusivamente para pagamento de juros, necessita de correções. É imperioso que o plano real adquira um contorno social e assuma feições humanas. O próprio ministro Malan, em conversas com o PMDB, já reconheceu esta necessidade. O tempo e as circunstâncias irão determinar a tempestividade das mudanças. As pesquisas de opinião e as manifestações públicas atestam a vontade popular de que o País avance.
Não obstante esta realidade, precisamos refletir sobre as sucessivas disputas internas no governo, que há 11 meses ocupam as primeiras páginas dos jornais e só contribuem para piorar nossa imagem e acentuar, desnecessariamente, uma propalada falta de diretriz, de comando mesmo. Não acredito em geração espontânea de crises. Elas só existem e se tornam públicas em virtude de alguém, com poder, estar as alimentando anônima ou explicitamente.
Não sei a quem, dentro do governo, possa interessar a fragilização da figura do presidente. Ao País não convém. As asas dos condutores da crise estão maiores que seus ninhos. Que as bruxas se acautelem para que o País não sofra nenhum dano. Um presidente não pode ficar enredado em fuxicos e administrar posturas adolescentes, ele precisa governar. Que os arautos das crises deixem o País seguir seu rumo de grandeza. Há um lugar para o Brasil no futuro.
- RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL

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