‘‘... e pros homê num tá fácil arrumá tanto disfarce, arrumá tanto remendo, se tá todo mundo vendo’’. (Ivan Lins e Vítor Martins em ‘‘Avisa o Formigueiro Vem aí Tamanduᒒ. O Brasil vive mais uma crise moral e ética. Quando tudo parece ter chegado ao fundo do poço, quando o último dos mortais acredita que já viu tudo e nada mais é possível acontecer na pátria verde-amarela, o Senado se encarrega de mostrar que a corrupção neste País é uma espécie de endemia crônica e sem fim.
O pior – se é que pode haver qualquer tipo de classificação nos atos de corrupção – é que desta vez os envolvidos são personalidades que ocupam altos cargos da república: os senadores Antonio Carlos Magalhães, José Roberto Arruda e Jader Barbalho. O primeiro presidiu o Congresso até o início deste ano; o segundo, foi líder do governo na Casa e o terceiro é o atual presidente do Senado. Sobre todos pesam acusações gravíssimas, que em qualquer outro país minimamente sério, estariam eles banidos definitivamente da vida pública.
O que deixa a sociedade estarrecida não são apenas as atitudes tomadas pelos parlamentares. Afinal, estamos acostumados ao longo de décadas – para não dizer séculos – assistir às chamadas elites se engalfinharem numa luta desmesurada pelo poder em troca de benesses e privilégios. O que preocupa é a impunidade. Sem dúvida que a corrupção não é uma exclusividade nacional, mas a impunidade é uma prática já incorporada ao balcão de negociatas. Daí, o descrédito da população para com os homens públicos.
Quem de nós, pelo menos uma vez na vida, não se perguntou até quando vamos suportar este mar de lama? Se ainda é possível ter esperança em mudar a face deste País, injusto e cruel para com a maioria, enquanto não houver uma transformação de valores éticos nos homens que conduzem a Nação? Montesquieu, em sua obra ‘‘Espírito das Leis’’, diz que ‘‘quando uma República está corrompida, não se pode remediar nenhum dos males que nascem, a não ser eliminando a corrupção e voltando aos princípios; qualquer outra correção ou é inútil, ou é um novo mal.’’
Assim vivemos no Brasil. A agudeza de nossas mazelas sociais só vem à tona em períodos pré-eleitorais, recheando os discursos vazios daqueles que, na grande maioria, locupletaram-se no exercício dos cargos. Os exemplos estão aí explicitados; só não os vê quem não quer.
Nos mais longínquos grotões deste País, qualquer cidadão é capaz de ditar inúmeros casos de corrupção envolvendo políticos, de todas as esferas e em todas as instâncias. A certeza da impunidade, do ‘‘sabe com quem está falando’’, do apadrinhamento, dos conchavos e acertos de gabinetes, fez do Brasil uma espécie de paraíso para esta bandidagem travestida de paletó e gravata.
Aliás, sempre se disse e continua válida a tese de que o Congresso é o melhor retrato da sociedade; por lá circulam traficantes, ladrões, cidadãos de ilibada conduta, padres, pastores, enfim, tudo aquilo que é parte integrante de nosso dia-a-dia.
A crise instalada em Brasília, envolvendo senadores de alto coturno, é mais uma grande oportunidade para os políticos de plantão darem mostras que ainda é possível se criar expectativas. Mas há uma condição sine qua non: será preciso extirpar os gânglios malignos que, há décadas, contaminam a vida pública nacional, ou seja, a cassação dos mandatos. Qualquer medida diferente desta será um desrespeito à sociedade e certamente custará muito caro àqueles que se omitirem neste momento.
O Brasil não suporta mais tanto engodo, tanta desfaçatez, tanta cara-de-pau, como se fôssemos nós um bando de imbecis ou cordeiros vivendo no reino do faz-de-conta. Todos, sem exceção, mentiram. E isso precisa vir à tona. Ou são honestos ou não; ou são culpados ou não. Lágrimas ou arrependimento não redimem culpa.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba

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