A crise no governo Lerner
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de dezembro de 2001
René Ruschel 
O governador Jaime Lerner vive um verdadeiro inferno astral. Caso as eleições para o governo do Estado fossem amanhã, a única certeza é que a disputa pelo primeiro lugar seria travada pelas oposições. Uma candidatura com apoio explícito do Palácio Iguaçu politicamente seria um desastre.
A prova maior está no fato do prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi, já nas eleições municipais do ano passado, ter procurado se afastar da imagem do governador, enquanto os adversários exploravam exatamente o fato de que ambos eram apenas a criatura e seu criador.
Uma sucessão de equívocos políticos, suspeitas de irregularidades administrativas, escândalos financeiros insolúveis, além de ligações perigosas e comprometedoras com prefeitos afastados, cassados e presos, fazem do governador uma espécie de refém de si mesmo. A última novidade foi a divulgação de documentos apresentados pelo PFL, partido do governador, ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), para prestação de contas da campanha de Taniguchi à reeleição. Segundo o dossiê, foram omitidos gastos no valor de quase R$ 30 milhões.
Por mais que Lerner tente se manter alheio aos fatos, afinal trata-se de uma questão partidária e relacionada à eleição municipal, é impossível neutralizar os estragos que virão à tona e atingindo em cheio seu governo.
Nos últimos sete anos, a grande ilusão do governador foi imaginar que poderia administrar o Estado cercado apenas por um pequeno grupo de amigos ou burocratas que o auxiliaram na Prefeitura de Curitiba em três oportunidades. No interior, costuma-se dizer que Lerner é o ''governador de Curitiba''. A visão cosmopolita do arquiteto e dublê de político não é a mesma do bóia-fria que, como gado humano, continua espremido na carroceria de um caminhão ou na carcaça de um ônibus sucateado; dos que vivem nas periferias das cidades cuja maioria das ruas são desprovidas de qualquer tipo de infra-estrutura básica ou onde o desenvolvimento econômico e social só pode ser observado nas telinhas dos aparelhos de televisão. Queira ou não, este é o retrato do interior do Paraná.
A propaganda oficial sempre mostrou um mundo de faz-de-conta que não condiz com aquilo que a sociedade vivencia em seu cotidiano. Por mais que os índices estatísticos e macroeconômicos desenhem gráficos mirabolantes, capazes de servir como parâmetro para discussões acadêmicas ou demonstrativas dos avanços sociais, a realidade quando vista a olhos nus põe por terra qualquer argumentação contrária. Isso não significa que o Estado tenha que conviver com o atraso, não buscando o avanço tecnológico ou mesmo sendo obrigado a permanecer fiel ao que um dia chamou-se de vocação natural à agricultura. Talvez o governador não tenha sido capaz de entender que governar é fazer o óbvio.
Temos também miséria quase absoluta no sul maravilha; desemprego no campo e nas cidades; e que pior, a falta de esperança por dias melhores. Para os milhares de famintos, desempregados e sem esperança, o óbvio é o prato de comida na mesa, o trabalho, o posto de saúde, a escola aos filhos.
Como não bastasse, um sem-número de ações e trapalhadas políticas acabou expondo o governo Jaime Lerner, tanto internamente como à vitrine nacional, da pior forma possível. Não foram poucas as insinuações de malversação do dinheiro público; do envolvimento político com prefeitos cassados por corrupção e alguns ainda presos a mando da Justiça; de negócios não esclarecidos, como os Jogos da Natureza ou o desfalque de milhões de dólares na Banestado Leasing; a venda Copel, uma estatal eficiente em qualidade e resultados, que contraria mais de 90% da população paranaense; a privatização das rodovias em condições favoráveis e que mais parece uma ação entre amigos; tudo isso sem contar o descontentamento do funcionalismo público com o achatamento salarial e a insatisfação política de sua base de apoio na Assembléia Legislativa e prefeitos em todo Estado. Com certeza o governador terá pela frente uma hercúlea tarefa: transformar o caos políticos em vitória. Pelo que se vê, nem Ferreirinha seria capaz de evitar uma catástrofe.
- RENÉ RUSCHEL é economista e jornalista em Curitiba
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