Não é preciso fazer contas nem ser gênio da matemática financeira para saber o tamanho da crise econômica em que nos metemos. Basta sair às ruas. Elas são o termômetro da vida brasileira, do desemprego, da desesperança e, às vezes, da esperança. Não é preciso nem andar a pé. Mesmo dentro de um carro, com vidros fechados e ar condicionado ligado, a crise nos encara.
Assume a forma dos moradores de rua, das crianças pedindo esmola, das deficiências físicas expostas na calçada e das barracas de camelôs. Em Brasília, das invasões. A presença desses chamados excluídos da sociedade aumenta ou diminui conforme o tamanho da crise.
Gente que desistiu de lutar ou não pode lutar. Como o cego de bengala branca chacoalhando a latinha de moedas para fazer barulho e chamar a atenção. Passa os dias em pontos diferentes da avenida Paulista, em São Paulo, onde fica a sucursal do Correio Braziliense. Perdi a conta do tempo em que o vejo a esmolar. Nunca falei com ele, nem sei se é cego mesmo. Mas vive das moedas que tilintam na latinha.
Já tive um amigo nessas esquinas. Vendia guloseimas numa cadeira de rodas. Risonho, simpático. Perguntava da família e me avisava quando estava atrasada para o trabalho. Perdeu-se por aí. Mudou de ponto e eu, de endereço. E as crianças? Lindas, mesmo maltrapilhas. Encostam o nariz no vidro do carro, aproveitando o sinal fechado, e pedem: ‘‘Tia, tem uma moedinha?’’ Quem é que recusa?
Com boa dose de razão, é possível dizer que existe uma indústria da esmola e da culpa. Alguns se acomodaram pedindo dinheiro nas esquinas. É um dinheiro fácil de ganhar aproveitando-se da generosidade e da ternura dos ‘‘incluídos’’ no mercado de trabalho e na vida social do país. Sem falar nos mal-intencionados e larápios de toda ordem.
É apenas parte da realidade. As crianças e os mendigos vão e voltam, ao sabor dos acontecimentos na economia. Só alguns poucos são profissionais na matéria. No início do Plano Cruzado, para usar um exemplo remoto, quando se vivia a ilusão do congelamento de preços, eles eram muito menos numerosos. Sumiram das ruas. Voltaram à ativa quando o plano fez água. Não é preciso estatística oficial para notar o fenômico. Sair às ruas resolve.
Nos últimos meses, os pedintes estão em todos os lugares. Na saída dos restaurantes, supermercados, padarias, teatros, cinemas e escritórios. Nas esquinas menos e mais movimentadas. Incomodam, atrapalham, irritam. Os donos dos estabelecimentos os enxotam para longe. Eles vão ­ e voltam mais tarde. Ou outros voltam no dia seguinte.
Portanto, pouca importância têm gráficos e curvas da inflação, das exportações e do câmbio para saber o que está acontecendo no país. Só não vê quem anda de helicóptero ou com batedores na frente para limpar o lixo humano.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo.

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