A crise não chegou a Brasília
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Fernando Klein Nunes 
''A despeito do que o mundo inteiro está fazendo para conter a crise global, baixando juros e incentivando o consumo, o Brasil prefere manter estas taxas nas alturas. Os responsáveis por esta decisão não ouviram o clamor dos empresários e do próprio presidente''
Na última semana tivemos duas notícias que nos deixam bastante aborrecidos e até envergonhados com o que ocorre no Brasil. A primeira foi a manutenção, em percentuais estratosféricos, da taxa de juros básica da economia em 13,75%, que de básica não tem nada, pelo Comitê de Política Monetária (Copom), formado pela equipe do Banco Central. Já nos Estados Unidos, a mesma taxa é de 1% e, acredite se quiser, será reduzida para incentivar o consumo e combater a crise.
Esta notícia acaba nos deixando estarrecidos. De um lado, vemos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo para a sociedade consumir mais e, de outro, funcionários do próprio governo decidem manter a taxa em patamares surreais e altíssimos. Estes valores são inimagináveis em qualquer outro país, mesmo em um momento de desaceleração visível da economia, onde uma redução não traria risco algum à inflação.
Ao contrário. A queda da taxa de juros faria um bem danado à economia e poderia, inclusive, ajudar-nos a atravessar com mais tranquilidade esta ''marolinha''. Não é preciso ser economista para verificar que o momento para se fazer isto seria agora, antes do Natal, quando milhões de brasileiros vão às compras e, em sua maioria, o fazem de forma parcelada. O comércio agradeceria, a indústria agradeceria e nós transportaríamos mais.
Mas não. A despeito do que o mundo inteiro está fazendo para conter a crise global, baixando juros e incentivando o consumo, o Brasil prefere manter estas taxas nas alturas. Desta forma, imaginamos que os responsáveis por esta decisão não ouviram o clamor dos empresários, do vice-presidente, do próprio presidente. Não lêem jornal, não assistem televisão. Vivem em outra realidade. Assim, nós pagamos o preço por tal irresponsabilidade.
A outra notícia, não menos espantosa, foi a surpreendente decisão da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal que, ao contrário do clamor das entidades civis organizadas e, eu diria, do bom senso e da aspiração da sociedade, aprovou o aumento do número de vereadores nos municípios com até 50 mil habitantes. Vale lembrar que esta proposta já havia passado com folga pela Câmara Federal.
Se a proposta for aprovada em plenário, o que é bastante provável, nós teremos, em breve, nada menos do que 7.854 ''novos representantes''. Será que precisamos disto mesmo? Os vereadores atuais não dão ''conta do recado''? Sabemos que não é necessário aumentar o número de governantes. Necessário, sim, é melhorar a qualidade deste serviço, é fazer com que todas as reivindicações passem do abstrato para o concreto. É fazer acontecer.
E alguns ainda têm a pachorra de ir à televisão dizer que esta proposta não vai aumentar o custo do Legislativo. Como não? O vereador leva com ele assessores, estrutura física e tudo isto significa custos. Valores estes que alguém paga e, neste caso, somos nós, empresários e cidadãos brasileiros, que cada vez mais somos esmagados por taxas e impostos que, em sua imensa maioria, não se convertem em bons serviços.
Será que este pessoal também vive alijado da sociedade e não ouve nosso basta? Não percebem que estes recursos, que não são poucos, poderiam ser utilizados em ações governamentais efetivas que realmente importam à sociedade, como a infra-estrutura, por exemplo?
Para mim, algumas coisas são tão óbvias que sequer necessitariam ser ditas ou discutidas. Essa é uma delas. Aumentar o número de parlamentares, em qualquer nível de poder, pode até ser legal, mas é imoral. Infelizmente, penso que a voz da sociedade não chega a Brasília na maioria das vezes. E, estes mesmos representantes, acabam fazendo tudo o que não lhes pedimos para fazer, agindo por conta própria. E o que é pior, por interesse próprio.
Sapato neles!
FERNANDO KLEIN NUNES é presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Paraná (Setcepar)


