A crise e o sistema
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
José Mario Angeli 
A crise financeira se apresenta revestida pelo termo ''sistema'', resultado causado e, de certo modo, o culpado pela crise. Tanto Rubin, indicado pelo presidente americano eleito Barak Obama para cuidar das finanças, tem-se expressado dizendo que ''precisamos enfrentar essa crise sistêmica''; quanto o representante do governo Bush, o ministro Paulson tem utilizado a expressão ''risco sistêmico'' para qualificar a crise como sendo capaz de comprometer as finanças mundiais.
Tanto um como o outro procuram entendê-la descolada de seu contexto histórico. O sistema aparece, para eles, como meta-histórico, algo que transcende as relações de classes ou grupos sociais de uma sociedade. O sistema tornou-se uma espécie de bode expiatório. Ele não tem nome, é irracional e inatingível. Ele está acima de tudo e de todos.
Desta forma, a irresponsabilidade do sistema absolve a culpa dos banqueiros, dos agentes financeiros de câmbio, dos investidores e operadores de bolsas. Esses indivíduos, em nenhum momento, cometeram ''crime algum'' contra a economia popular. Esses mesmos indivíduos são aqueles que asseguram ''o direito e a liberdade como sendo igual para todos''. Mas, esses mesmos são os que querem que o bode expiatório se mantenha com base no mesmo estatuto: o da desregulamentação. Todos eles - Bush e Obama - representam grupos poderosos que contribuem para sustentar este sistema. Um mais outro menos, mas o fantasma é sempre a crise, que ronda o lucro do capital. E, para recuperar a taxa de lucro evocam as formas mágicas e querem que o sistema mantenha o mesmo estatuto. Estariam os liberais revendo suas posições teóricas? Onde está a lógica do sistema? Os remédios que estão sendo aplicados não deveriam ser também sistêmicos?
Dias atrás, dois prêmios Nobel de Economia - Krugman e Stiglitz - afirmavam a necessidade de mudar o sistema. Esses não são defensores e nem são representantes, certamente, de uma política liberalista. Se se pensar que o liberalismo está em crise, visto que o próprio presidente Bush reinaugurou a era da nacionalização adotando o modelo de bancos com participação estatal, injetando dinheiro público no sistema e nas montadoras, a crise continua e parece ser de ''longa duração''. Obama caminha na mesma vereda: sua proposta será de desenvolver políticas de cooperação com as montadoras, em infra-estruturas e ecotecnologia, mas sempre com a preocupação de salvar o sistema e com o objetivo de aumentar a demanda pelo consumo.
A implementação do aumento da demanda é um instrumento keynesiano, porém buscá-lo através de uma política ortodoxa monetarista é uma contradição, pois no final das contas o custo recai sobre o trabalho. Já não é perceptível a demissão dos trabalhadores por parte dos empresários. Diante da profundidade da crise provocada pelo laissez-faire é preciso tomar medidas à esquerda. Mas, que esquerda é essa que faz a prática da direita, colocando recurso público para sanar a crise do capital em detrimento do trabalho? Ela parece mais uma ''ex-esquerda'', comandada pela direita. A metáfora do violinista: que segura o violino com a esquerda e toca com a direita, reproduz fielmente essa realidade. No entanto, parece ser preciso enfrentar dois grandes problemas sobre a crise, o primeiro é sobre o mundo financeiro. É preciso limitar a farra do arbítrio financeiro. Seriam os estados nacionais o condutor de uma nova política econômica que rompesse com a globalização financeira? Teriam eles forças para reescrever as regras que deveriam reger as normas internacionais sobre a financeirização do mundo?
O segundo, refere-se ao sistema econômico. Não é possível ter um consumo sustentável se a força de trabalho continua sendo explorada, precária e flexível. Isto tem cada vez mais provocado um grande endividamento e empobrecimento dos trabalhadores. Se se propugna resolver o problema que é sistêmico, ele não poderá vir acompanhado de um auto-emendamento do sistema por si mesmo, não basta a crise para resolvê-lo, uma vez que ela é da essência do capitalismo. Um novo ''new deal'' não nasce das mentes de uns poucos homens iluminados, mas sim da pressão popular como historicamente aconteceu na década de 30 do século passado.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


