Há quem veja na onda de denúncias e escândalos que devastam a área política como sinal de uma corrosão irreparável no tecido institucional. Esse sentimento é mais ou menos expresso pelo desabafo das esquinas: ‘‘O Brasil não tem jeito.’’ Efetivamente, a ladroagem e a corrupção, como a saúva, estão fazendo grandes estragos na lavoura política. Mas, por incrível que possa parecer, a crise é saudável. E a explicação é mais que simples: o tumor lancetado depura o sangue das veias e acaba melhorando o estado geral do paciente. Pois é o paciente Brasil que está sendo dissecado de todos os lados. E isso é fantástico para a oxigenação da vida política e institucional do País.
Primeiro, a constatação: a corrupção não é coisa nova. É tão velha quanto as capitanias hereditárias. Ao longo dos tempos, foi ganhando novas formas, assumindo novos espaços. Hoje, está entronizada em todos os ambientes das administrações, começando pelos municípios, passando pelos Estados e chegando nos andares mais altos da União. Há um Produto Interno Bruto (PIB) invisível, em nosso País, tão grande ou até maior que o PIB visível. Mas só, nos últimos tempos, está sendo exibido. A conta-gotas, é oportuno frisar. Quem não sabe que a Sudene e a Sudam deram dinheiro a fundo perdido a milhares de empresários fajutos, que enriqueceram à custa de empreendimentos de fachada?
Quem não sabe que as concorrências públicas, regra geral, são contaminadas por interesses de grupos? Quem já não ouviu falar que até o intocável e majestoso Poder Judiciário tem juízes corruptos, que vendem sua caneta a preço de banana? Quem não conhece as histórias de superfaturamento, de comissões e gorjetas, que criam uma gigantesca cama, onde convivem, de maneira promíscua, as tramas, ciladas, emboscadas, armadilhas, benesses, cooptação com dinheiro, fisiologismo, apadrinhamentos etc., etc.?
Interessante é que alguns políticos e partidos querem se apresentar, nesse momento, como vestais ilibadas. Os relatos do nosso cotidiano estão a demonstrar que a distância entre o cume da glória e a profundeza da desgraça é menor que a cabeça de um alfinete. Quem diria que homens poderosos deixariam os céus da fama, da noite para o dia, para passar noites tenebrosas no inferno da suspeição? E tudo isso está ocorrendo porque a sociedade brasileira assume, cada vez mais, um papel de lume político.
Já se foram os tempos do ‘‘maria-vai-com-as-outras’’. Já se foram os tempos em que comprar lebre por gato era coisa banal. Ninguém quer ser enganado. A sociedade contempla com raro prazer as cenas escandalosas que colocam senadores e ministros no caldeirão do diabo.
Um poeta, um dia, previu o alvorecer desses tempos mais lúcidos e iluminados, ao proclamar: ‘‘É um prazer estar na costa, a ver navios fustigados pelo oceano; é um prazer estar à janela de um castelo, a ver diante de si a batalha e as aventuras; mas não há prazer comparável ao de estar no cume da verdade, a ver os erros, os desvarios, os nevoeiros e as tempestades no fundo do vale.’’ Esse é o deleite maior da sociedade brasileira, que pressiona e clama pela verdade, doa a quem doer.
E quem quiser tirar proveito do purgatório dos outros, não perde por esperar. O caçado de hoje poderá ser o caçador de amanhã. Somente os cidadãos de passado limpo e vida decente têm direito ao passaporte direto para ingressar no paraíso. E quem pode, com todo o respeito por pessoas de vida limpa, que seguramente povoam os recantos deste País, exibir tal passaporte? No campo político, poucos, muito poucos podem dizer que têm alguma proximidade com Deus. Se gritam pelo nome do Senhor, frequentemente usam seu nome em vão. Haverá salvação para os pecadores? Mas, claro. Não basta o arrependimento. Isso, só, não bane a pena. É preciso um ato de contrição e a vontade efetiva de mudar. No próximo ano, os eleitores, na boca das urnas, vão decidir o destino dos infiéis. Ou, conforme o caso, dar uma penitência ou mais uma chance aos pecadores. A crise, nesse sentido, está sendo um grande confessionário.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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