A propaganda eleitoral de Fernando Henrique Cardoso tenta vendê-lo à opinião pública como um homem de coragem, capaz de adotar medidas duras para defender o Real mesmo que representem supostos riscos para a sua reeleição. Mas entre o que a propaganda diz e o significado efetivo das medidas do governo há uma diferença abissal e uma falta de ética assombrosa.
Para entender o que se passa, talvez seja conveniente lembrar que o próprio Fernando Henrique já pregou que o governante deve ‘‘não dizer a verdade’’. Mais conveniente ainda é lembrar que Max Weber, um pensador admirado por FHC, sugere que a ética própria dos políticos é a ética da responsabilidade. É dizer: o político deve assumir a responsabilidade por suas decisões e pelas consequências que elas acarretam. Parece que não é isto o que está acontecendo.
Torna-se fácil vender a imagem de corajoso quando os seus custos recaem sobre os outros. As medidas que o governo adotou, não há dúvidas quanto a isso, provocam a quebradeira de empresas, o aumento da inadimplência, mais desemprego. É preciso falar dessa crueza da vida real para dizer que a frieza dos números do governo atinge dolorosamente as pessoas. É preciso denunciar que a coragem das imagens televisivas obscurece a covardia da omissão e a criminosa arrogância dos burocratas do governo que venderam um falso otimismo durante quatro anos.
Contra todas as recomendações de economistas de várias tendências - de Delfim Neto a Maria da Conceição Tavares - o governo não ajustou o câmbio antes que a crise chegasse. Contra muitas advertências, o governo insistiu em manter um vínculo de dependência excessiva da nossa economia ao capital especulativo. Contra todos os perigos que isso representava, o governo endividou o País a níveis desastrosos mesmo vendendo dezenas de estatais para, supostamente, diminuir o déficit público.
Mesmo contra a pressão do PT, da CUT e dos empresários, o governo não deu prioridade à reforma fiscal e tributária. Estas omissões são a principal causa da crise que atinge o Real e a economia brasileira. O governo, de forma escandalosa, afirma que a crise que nos atinge é global ou que é uma consequência da crise russa. Todos sabem que a crise tem uma dimensão global. Mas se o governo brasileiro tivesse cumprido com sua parte, hoje o Real estaria protegido contra as ameaças e milhões de empregos não seriam ceifados com tanta facilidade. Coragem o presidente teria se viesse a público dizer: ‘‘Erramos, pedimos perdão, queremos um voto de confiança’’. Esta seria uma atitude consoante com a ética da responsabilidade, recomendada por Weber.
Ante a gravidade da crise, exige-se a responsabilidade de todos, inclusive da oposição. Se a crise não se agravar nos próximos dias, tudo indica que após as eleições o governo adotará medidas de ajuste fiscal. No curto prazo, essas medidas significarão mais sofrimento para a sociedade. Se o governo optar por cortes no Orçamento, as políticas sociais serão as mais prejudicadas. E se a opção for o aumento de impostos, a sociedade como um todo, mas especialmente a produção e o trabalho, serão os mais afetados.
A carga tributária que recai hoje sobre a sociedade já é de mais de 30% do PIB. Mais de 7% do PIB financiam o déficit fiscal. Nenhum país que consome no setor público mais de 40% do que produz terá um futuro risonho. Acrescente-se que os serviços devolvidos pelo Estado à sociedade são ineficientes.
Com todas essas dificuldades sociais, é inaceitável que o marketing eleitoral construa uma biografia do FHC político às custas de feitos e de sacrifícios dos outros. É preciso dar a Itamar o que é de Itamar, pois foi ele quem implantou o Real. E se o Real ainda tem salvação, esta será devida aos trabalhadores que sacrificam a satisfação de suas necessidades, aos milhões de desempregados e aos produtores industriais e agrícolas submetidos a condições de produção adversas e a juros escorchantes. Não é justo que o sacrifício de muitos seja contabilizado como eficiência dos especuladores e como coragem dos omissos.
- JOSÉ GENOÍNO é deputado federal pelo PT-SP

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