A presidente da República, Dilma Rousseff, e o governador do Paraná, Beto Richa, iniciaram seus novos mandatos com problemas financeiros. A crise, ora escancarada nos governos e apenas assumida agora após as eleições, não é apenas nas finanças. A crise atual nem é tão atual assim. Já vem de tempos e tem raízes profundas. A irresponsabilidade política não vem de agora. Nossos representantes são eleitos com promessas de resolver problemas e melhorar a vida das pessoas, e quando instalados no poder reproduzem práticas anteriores, deixando pequenos avanços a custos muito altos para a sociedade.
Os mesmos governantes que enalteciam sua capacidade de governar quando em campanha eleitoral, agora dizem que ajustes são necessários. Corte de direitos, aumento de impostos e contenção de gastos tornaram-se extremamente necessários para não comprometer as conquistas sociais. A educação, a saúde e a segurança "voltam" a ter falta de recursos. O endividamento chegou num limite insustentável. É o que dizem agora.
Difícil é convencer as pessoas que do final da campanha eleitoral para cá as coisas tenham mudado tanto. Difícil aceitar que a política seja a arte da mentira. Não pode e não deve ser. Interessante ver PSDB e PT acusando um ao outro de estelionato eleitoral. A credibilidade dos governos, sejam de que partido político for, só pode ser provada pelo seu nível de transparência. Tanto mais transparentes forem na administração dos recursos e condução de suas ações e planos de governo, mais credibilidade e apoio terão. É este o ponto central que deve nortear o debate da gestão pública, sobretudo neste momento de ajustes e "pacotes de maldades".
É deficitária, para dizer o mínimo, a prestação de contas à sociedade por parte dos gestores públicos. Não há transparência nem debate público. O Poder Legislativo, infelizmente, falta com sua função de fiscalizar porque, via de regra, tem funcionado como auxiliar do Poder Executivo. Os tribunais de contas pouco fazem neste sentido também por influência do Poder Executivo. Tem sobrado ao Ministério Público a difícil missão de investigar as contas públicas quando acionado, mas aí já com o estrago feito.
A Lei de Responsabilidade Fiscal foi um avanço quanto à ordenação da gestão pública, chegou para regrar os gastos públicos e reduzi-los à arrecadação, nada mais óbvio. Na verdade, a LRF precisa ser vista como uma lei de responsabilidade política e, através dela vislumbrar que, precisa imperar o interesse coletivo. Os governos não possuem recursos, estes são da sociedade. Deveria ser simples assim.
A má gestão, a incompetência, a corrupção, a governança por compadrio e a representação política de péssima qualidade têm tornado a política miserável e medíocre. Tudo isso coopera para o quadro lamentável em que vivemos. Boa parte do dinheiro público tem servido para grupos políticos e econômicos se manterem e se reproduzirem no poder.
Ao contrário do que ocorre, os cidadãos precisam exercer seu papel. Acompanhar o trabalho dos políticos em todo tempo. Se interessar por política não é fácil, mas necessário. A miséria da política nacional tem raiz cultural no chamado "jeitinho", a ótica do sujeito esperto que quer se dar bem sempre, não se importando com a coletividade. Tal princípio está disseminado profundamente na sociedade, e é claro, se tornou valor para muitos políticos, como vemos nas páginas desta FOLHA há tempos.
Enfrentar a postura do "jeitinho" é necessário não só na política, mas nela é essencial. Buscar os direitos coletivos com serenidade e justiça, cobrando cada político eleito é missão de todos. Mesmo sendo uma difícil missão temos que acreditar que podemos superar a crise que enfrentamos. E essa crise se consolida muito mais como ética e moral do que econômica como dizem os governantes.

WILSON FRANCISCO MOREIRA é professor de Sociologia em Londrina



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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