A crise dos homens públicos - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Gaudêncio Torquato 
Nenhum homem, já registravam as Sagradas Escrituras, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura e alterar o pequeno modelo do corpo humano. Mas o vasto corpo das Repúblicas, já dizia Francis Bacon, depende, para seu engrandecimento, da capacidade dos governantes. Essa é a questão central ao redor da qual gravitam os elos da crise de governabilidade que mergulha o país na incerteza. A incerteza é maior porque alguns governantes se esforçam para acrescentar um palmo à sua altura, alongando perfis pessoais, ao invés de expandir as condições de seus Estados. Mas há figuras, como a de José Ignácio, governador do Espírito Santo, ou Mário Covas, em São Paulo, que enveredam pelo caminho áspero dos cortes de gasto, decisão trágica para a imagem pessoal, mas fundamental para a saúde do Estado.
A lógica fria da política requer que homens, programas e recursos sejam sacrificados para proteger o interesse nacional. Nos momentos de turbulência, a hipótese se torna ainda mais verdadeira. O tamanho da crise depende, portanto, do eixo de visão dos governantes. As variáveis humanas - percepção, autoridade, sensibilidade, comando, civismo - aumentam ou diminuem a eficácia do combate à crise. Donde se pode concluir que parcela considerável das crises que vivemos tem origem na incapacidade/ineficiência/incúria das elites dirigentes. O Congresso Nacional, há de se reconhecer, tem dado respostas ágeis às reformas tão necessárias ao ajuste fiscal e à modernização do país. Mas uma crise de identidade corrói a imagem do Executivo. Seus contornos apontam para a ênfase no discurso econômico, com visível secundarizacão e deterioração do discurso social; a ausência de um projeto estratégico de longo prazo, que provoca a sensação de que o Governo age apenas no varejo; a ciclotimia das decisões, com idas e vindas, nomeações e desnomeações de pessoas, dizeres e desdizeres de coisas.
No que se refere à figura do presidente da República, é patente a crise de autoridade. A imagem de um professor gesticulando para os cantos opostos da sala de aula lembra um Fernando Henrique sem rumo, sem olhar para o centro, para o futuro. Tíbio, inseguro, mas ainda sincero para com os ideais. Parece cada vez menos um presidente da República, firme e determinado, e cada vez mais um Chefe de Estado de regime parlamentarista. É gritante a crise de articulação política. O recém nomeado para tal missão, o ministro das Comunicações Pimenta da Veiga, não tem o estofo de Sérgio Motta, agindo mais como tucano defendendo interesses do PSDB. E o Executivo se transforma num espaço desconjuntado e, pior, disputado a ferro e fogo pelos partidos aliados.
O descompasso entre os Ministérios é evidente. Uns se mostram proativos, outros nem aparecem. Fracassam pela inoperosidade de seus dirigentes, falta de recursos, ausência de prioridades. Alguns, mesmo à mingua, sobressaem em função do folclore verborrágico do titular, como é o caso do ministro Rafael Grecca, do Turismo. E no meio da linguagem eminentemente monetária do Executivo, não há espaço para a comunicação eficaz. Ela simplesmente não existe. Há um porta-voz, Sérgio Amaral, que é um fecha-fala, tão monocórdico que é. O por do sol, a fila do desemprego, a catástrofe passam por sua garganta carregando uma única nota musical. A comunicação é reativa, quase sempre como resposta a boatos, mais parecendo pedidos de desculpa.
Numa noite do passado, convidaram Temístocles, o ateniense, altivo e arrogante, para tocar cítara numa festa. Recusou, dizendo que não sabia tocar música, mas sabia fazer de uma pequena vila uma grande cidade. Era um estrategista e um homem de Estado. No meio da tormenta que estamos atravessando, faltam perfis como esse. Figuras que saibam tocar seus ministérios, seus Governos estaduais, municipais, e que ajam como verdadeiros estadistas. Temos, entre nós, um montão de homens públicos que se acham protótipos da arte de governar. Não passam de perfis rasteiros, tão bem retratados pelo desgraçado provérbio italiano: tanto buon que vale niente (tão bom que não presta para nada).
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)


