Desde que foi anunciado que a sociedade sofreria cortes de energia, o tema dos apagões não saiu mais da imprensa. Ao mesmo tempo, o governo Fernando Henrique Cardoso sofreu, como era de se esperar, duro desgaste com o anúncio das medidas. Conforme escreveu Roberto Macedo em ‘‘O Estado de S.Paulo’’ do dia 17, ‘‘FHC chegou àquela situação em que os críticos talvez já não saibam precisamente porque estão batendo, mas ele sabe porque está apanhando’’.
Mas o fato é que a crise energética é bastante preocupante, pois além dos transtornos causados a cada brasileiro em particular, atinge duramente a atividade econômica como um todo, sinalizando para um crescimento menor do que o previsto anteriormente.
Gostaria de alertar como produtor rural para o impacto da crise na agropecuária, pois se note que muito se tem escrito e debatido sobre as previsíveis perdas na indústria, mas ainda não foram avaliadas as consequências do racionamento neste setor.
Quero então lembrar, que a crise energética redunda no comprometimento da estrutura da produção agropecuária, e ilustro minha argumentação com alguns simples exemplos tais como: a paralisação mesmo que temporária do maquinário que auxilia no preparo da alimentação dos animais, a interrupção da irrigação, do aquecimento e iluminação das granjas de aves e suínos, das câmaras frigoríficas que conservam e possibilitam uma maior vida útil à fruticultura, não esquecendo da ordenha mecânica do leite e de sua refrigeração.
Tal situação penalizará o consumidor pela previsível escassez de alimentos, e consequente majoração dos preços dos produtos a partir da lei da oferta e da procura.
Como se pode observar, os cortes de energia criaram em cadeia danos à economia do País, cujos efeitos a curto prazo serão evidentes, se já não o são, através da deterioração das expectativas positivas na atividade econômica, com reflexos imediatos nos mercados de capitais e de câmbio. Isso naturalmente incide negativamente nas importações e exportações, e funciona novamente como fator negativo também para a agricultura.
Por hora não se prevê o racionamento de energia no Sul ficando, portanto, livre o Estado do Paraná dos efeitos nocivos da medida, em que pese o fato de que a crise atinge o Brasil como um todo. Contudo, já se fala que teremos nossos apagões paranaenses no final do ano, isso se o governo do Paraná não resolver se antecipar e emprestar (talvez o termo exato fosse vender) energia para os outros Estados como já foi ventilado pela imprensa.
Diante da gravidade da situação, concitamos os políticos do Paraná, tanto os do Poder Executivo quanto os do Legislativo, para que se posicionem a fim de impedir que sejamos ainda mais penalizados e, pior, sem necessidade. Com a perspectiva das eleições no ano que vem, seria prudente que nossos atuais representantes medissem ainda mais as consequências dos seus atos, de modo que não viessem depois a amargar o resultado das urnas. E mais importante ainda, seria que pensassem bem antes de sacrificar a economia de um Estado como o nosso que é chamado de ‘‘celeiro do Brasil’’.
Creio também que no momento é menos importante tentar avaliar as causas que levaram à crise, e mais fundamental equacionar a situação para que sejam evitadas consequências mais drásticas que, sem dúvida, tendo se originado de um processo que adveio de governos anteriores, desfechou-se neste que também não foi capaz, como afirmou Roberto Macedo, de ‘‘voltar-se seriamente para a produção de bens e serviços, em que insumos produtivos, como a energia, precisam ser pensados estrategicamente’’.
De todo o modo, que a lição dos apagões origine luzes tanto no setor governamental quanto na iniciativa privada, no sentido da criação de ações, e mecanismos como, por exemplo, a construção de termelétricas, ou seja, de meios eficientes que impeçam no futuro que o Brasil fique às escuras.
E como o setor de alimentação é estratégico, seria um dever cívico do governo isentar a zona rural do racionamento. Já perdemos tempo demais em busca dos caminhos do desenvolvimento. Fiat lux.
- FRANCISCO LUIZ PRANDO GALLI é presidente da Sociedade Rural do Paraná

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