A crise de 68
Após alguns uísques, o ministro Gama e Silva, da Justiça, dissera a Batista Ramos, então presidente da Câmara dos Deputados, meses antes da crise político-militar de setembro de 1968, e de seu desfecho em dezembro, estar pronto um ato institucional para fechar o Congresso. Vigorava, então, no governo do general Costa e Silva, a Constituição outorgada em 1967 pelo marechal Castelo Branco.
Supostamente foi um discurso do deputado Márcio Moreira Alves, em 2 de setembro de 68, contra a invasão da UnB pelos militares, que gerou a crise. Márcio pregou a sabotagem ao desfile do Dia da Pátria, sugerindo a greve de mulheres aos namorados e maridos militares, como na peça Lisístrata, de Aristófanes, de 411 a.C.
As notas taquigráficas desse discurso anexadas ao pedido de licença que o ministro enviou à Procuradoria da República para processar seu autor no Supremo Tribunal tinham sinais de falsificação. Algumas palavras de Márcio, ditas na Câmara, foram trocadas, tornando sua fala mais agressiva.
Há 32 anos, em três momentos a Câmara emocionou o País. Num, sua Comissão de Justiça, alterada às pressas pelo governo, aprovou a licença por 12 votos a 9. O governista Djalma Marinho, que a dirigia, votou contra a licença e renunciou ao cargo, em memorável discurso, pois julgara impossível à luz da Constituição o crime imputado a Márcio. Veio depois a oratória notável de Paulo Brossard, que embasou no Direito a resistência às ameaças contra o Legislativo. No dia 12, corajosa e cartesianamente, um jovem engenheiro, líder da oposição, pulverizou o irracionalismo de Gama, apoiado na tese de desagravar os militares.
Sob pressão disse ele a Câmara está no banco dos réus. Não é possível, porém, desagravar uma instituição pelo desrespeito a um poder. E não é crível que as Forças Armadas, defensoras, em nome do povo brasileiro, em solo estrangeiro, da liberdade e da democracia no mundo, queiram, como imperativo de sua sobrevivência, o sacrifício da democracia e da liberdade no Brasil. Creio na Justiça, cujo sentido é a limitação de poder, por dois extremos: a contenção, para não extravasar na prepotência, e o pleno exercício, para não se despenhar na omissão.
Palavras do líder Mário Covas, cujo discurso decidiu a votação em favor da liberdade da tribuna parlamentar. A Câmara, concluiu ele, será absolvida, na altivez deste plenário, pelas vozes do gênio do Direito e da Deusa da Justiça, pois não permitirá que um delito impossível faça o funeral da democracia, o aniquilamento de um poder e seja o canto lúgubre das liberdades perdidas.
Por 216 votos não, 141 sim e 12 abstenções, rejeitou-se a licença. A Câmara fora absolvida. Mas o ato de Gama fechou o Congresso. Começavam os tempos de violências e torturas. Para quê? Para nada. Em 32 anos, as obras válidas do regime foram todas vendidas. E Covas, o vitorioso na derrota de 1968, hoje é um dos milhões de brasileiros derrotados pela vitória da globalização neoliberal no Brasil.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





