A crise da energia no Brasil
Não é de hoje que artigos vêm sendo escritos nos espaços de opinião dos grandes jornais alertando sobre a crise de energia elétrica no País, assim como muito se fala da crescente escassez de água potável não só no Brasil mas em diversos países, especialmente os mais pobres. Essas questões começam a sair do círculo de debates entre especialistas ambientais e ganham, pouco a pouco, toda a sociedade.
A crise do desabastecimento de energia elétrica é um problema muito sério. Já há diagnósticos bastante precisos sobre a sua gravidade e extensão. Resta saber o que o governo irá definitivamente fazer para responder a este grande desafio da atualidade. Mas a grande verdade é que um dos fatores mais positivos para o agravamento da crise é a falta de investimento em novas unidades geradoras como bem salienta José Goldemberg: O governo não tem responsabilidade pela falta de chuva, mas é claramente responsável pela falta de investimento em nova geração, que foi sempre a opção preferida pelo setor elétrico. Isso se deve, por um lado, às dificuldades de investimentos das estatais ainda nas mãos do governo e, por outro, a uma privatização pela metade e a um sistema regulatório pouco claro, que inibe os investimentos privados.
Em seu editorial do dia 15, o jornal O Estado de São Paulo também destaca que no caso da eletricidade (...) a privatização foi emperrada, porque o governo não teve coragem política para enfrentar seus adversários. Grandes investidores privados permanecem à espera da privatização das grandes geradoras que deverá ocorrer quando os obstáculos políticos forem vencidos. Grupos empresariais que poderiam ter investido, ou estar investindo, em centrais termoelétricas, também não se mexeram ainda porque faltam regras claras e seguras para os investidores.
Não foi por falta de aviso que o governo se vê agora diante dessa situação. É evidente que o racionamento traz efeitos negativos para toda a sociedade. Os técnicos deverão agir rápido não apenas em buscar iniciativas para atrair investimentos para o setor como evitar que os apagões gerem um clima de catastrofismo que em nada contribuirá para a solução do problema.
Entre as alternativas possíveis, sugeridas por José Goldemberg, deve-se encorajar o uso de gás natural em unidades descentralizadas de pequeno porte, mas suficientes para suprir as necessidades de eletricidade de shopping centers e grandes edifícios. Soluções existem. Falta, muitas vezes, vontade política para aplicá-las.
O governo terá também de saber se comunicar com a sociedade, sendo transparente e didático, para que as pessoas entendam que as medidas a serem tomadas são necessárias para que não haja maiores complicações num futuro próximo. Nesta ação pedagógica, o governo não pode deixar de trabalhar constantemente para uma reeducação dos nossos hábitos de consumo, bastante permissivos.
Temos que aprender a não desperdiçar os recursos disponíveis. Isso é vital para o êxito de qualquer ação emergencial. Isso tanto para a energia elétrica quanto para o consumo de água.
- VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e dirigente de instituição de ensino em São Caetano do Sul
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