A criatura devora seus criadores

Joel Samways Neto
Não é de agora que uma parte da mídia, a banda abusada, explora podridões e baixezas. Porque tudo é uma questão de mercado. O equilíbrio, o normal, o trivial, não chamam a atenção – ao menos, não tanto quanto o fazem os apelos aos básicos, e baixos, instintos. E, afinal de contas, se tudo se resume no êxito da vendagem, se a questão é de sobrevivência: apelos, aí estão eles! Por isso, no Paraná, assim como no Brasil inteiro, há inúmeros programas de rádio e televisão, e matérias de jornal, especializados em escandalizar a crônica policial boa e útil. São espaços da mídia que simplesmente abusam da liberdade de imprensa, abusam do direito de informar. São aqueles programas que, no rádio, trazem um narrador contando como ocorreu o crime, tintim por tintim, com uma música tétrica ao fundo... São aqueles programas de televisão que costumam escrachar cidadãos suspeitos da prática de algum delito, filmando-os e mostrando sua imagem com legenda na qual se lê ‘‘ladrão’’, ‘‘assassino’’, ‘‘estuprador’’, etc. Isso quando o apresentador não acrescenta comentários desairosos, demolindo o patrimônio moral do ‘‘entrevistado’’... Quanto aos jornais, alguns jornais, os excessos de sua crônica policial já começam nas fotorreportagens, com retratos de suspeitos enquadrados como réus confessos, ou ainda com o retrato das vítimas estraçalhadas, ou mesmo dos próprios criminosos, estraçalhados na pronta ação da polícia. Isso tudo criou uma mentalidade social que vem sendo mantida, alimentada, diariamente, pela conduta menos ética de agentes da mídia e seus cúmplices desavisados.
Essa exploração vende produtos e subprodutos. Os produtos são as matérias propriamente ditas; os subprodutos são as promoções dos diversos agentes envolvidos nas histórias. Tanto podem ser policiais, que efetivamente não se negam a aparecer para comentar os casos em que estão trabalhando (opinando, não raro, além de sua competência funcional), quanto testemunhas e até advogados. São pessoas que se apresentam para tirar uma lasquinha das tragédias, e assim projetar seu nome, sua imagem, enfim, gozar uns poucos minutos de fama. Todos concorrem para a sustentação da criatura, faminta do lado obscuro da vida social.
A tecla em que tenho batido, isso há vários anos, é a da flagrante violação – cometida por essa banda abusada da mídia – contra os direitos individuais, chamados de fundamentais, inscritos na Constituição da República. Dentre outros, o direito de não ser submetido a tratamento desumano ou degradante, direito à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem, o direito de não ser considerado culpado até que o Poder Judiciário decida, definitivamente, o processo de acusação, o direito à ampla defesa. E sempre que toco nesse assunto, os agentes da criatura se irritam e reagem dizendo (ou vociferando) que estou defendendo bandidos. Evidentemente, confundem, de propósito, alhos com bugalhos. Eu defendo são os homens de bem, os cidadãos corretos, cumpridores de seus deveres, pagadores de seus impostos. Todavia, cidadãos que, a despeito de seu zelo e correção, não estão imunes de a qualquer hora sofrer alguma acusação lançada por um desafeto enfurecido; e, em razão disso, como qualquer pessoa, ser alvo de uma investigação, objeto de inquérito policial. E se, e quando, isso acontecer, enquanto estiverem sendo investigados, se explicando, se defendendo.
Pois a criatura – o sistema abjeto de exploração de fatos criminosos – acabou devorando alguns de seus co-criadores. Por obra e graça (talvez desgraça), da CPI do Narcotráfico, alguns dos policiais que sempre estiveram sob holofotes e diante de microfones dessa mídia abusiva, matando a fome da voraz criatura, foram denunciados, acusados e presos antes mesmo que tivessem respondido sequer a uma sindicância administrativa, quanto mais a um inquérito policial. A criatura lambeu as unhas. Esses policiais sentiram na própria pele o significado de ser condenado pelo tribunal da mídia, assim sumariamente, sem direito a defesa, sem direito a nada. Não sei se são culpados ou inocentes. Quem decidirá isso é o Poder Judiciário. Mas já estão estigmatizados. Mesmo que provem sua inocência, ou que há falta de provas de sua culpa, dificilmente terão condições de voltar a desempenhar normalmente sua função pública. É desumano? É. É degradante? É. É uma violação ao direito de ser considerado inocente até que a Justiça decida? É.
‘‘E daí?’’, perguntou a criatura, palitando os dentes e massageando a pança.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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