No semáforo, ouço uma criança repreendendo o pai: ‘‘Papai, não passe no sinal vermelho, é proibido, paga multa.’’ E falava com tom ditatorial, empregando energia e senso de responsabilidade. Idade da criança: 8 anos ou coisa assim. O sinal abriu, e lá se foi o pai obediente, com cinto de segurança devidamente colocado e sem cantar pneus.
Vejo outra criança, na rua, chorando porque a mãe jogou uma fruta podre no passeio; nervosa pelo flagrante da filhinha, a mulher ainda teve o topete e a tirania de aplicar uns cascudos no infante, que não teve sequer os aplausos dos transeuntes. De outra feita, uma criança esbravejando com o pai, na porta do boteco, para não gastar o dinheiro minguado da conta da farmácia. E, com o dedo em riste, ameaçava chamar a polícia para levar o pai para casa.
Imaginem a excentricidade e a repercussão destas três cenas na década de 20, quando a criança era um zero calado e anêmico na esquerda da vida e das prioridades. Seriam excelentes momentos para pancadaria e palmatória dolorida nos baixinhos; época em que as crianças eram as últimas na mesa e as primeiras nas chicotadas. Se fosse do sexo feminino pior ainda: nem direito à escola!
Quem imaginaria que, no findar do século XX, o poder começasse a migrar de cima para baixo? A grande oportunidade para o mundo está, de fato, nas mãos infantis. A revolução silenciosa, emplacada pela inocência, pela decência, pelo compromisso, pelo mundo sem fronteiras e por uma vida fraterna será implantada pela força infantil no próximo milênio.
Será uma reviravolta sem precedentes na história da humanidade; uma bela batalha sem canhões, sem ismos políticos, sem derramamento de sangue, sem apego ao mandonismo das elites e sem a revolta dos plebeus. Não será fácil a aceitação total da infantocracia em tão pouco tempo, e com tanta abrangência. Porém, felizmente, não haverá como deter esta onda do futuro de ouro e de paz, e de acerto para todos. Os grande vitoriosos serão as escolas, os professores e os pais comprometidos com uma educação transparente, responsável e esclarecida para seus pimpolhos.
O neto terá muito peso quando o avô, nervoso e pressionado pelos interesses eleitoreiros de ocasião, relutar em atender aos interesses da ecologia, do ar, da água, das escolas e dos postos de saúde. A presença infantil, crescente e reluzente na televisão, será a marca da evolução nos meios de comunicação, demonstrando que o mundo tem cura e tem amor abundante para ser distribuído com igualdade e sem limites.
Senhoras e senhores, vamos, pois, de agora em diante, repensar nosso papel na sociedade, cedendo a voz e a vez para os mais bem preparados. As luzes do milênio iminente estão vindo de encontro à garotada. O trono no século XXI será entregue a melhores mãos e a corações mais limpos e abnegados. Está encerrada a era do egoísmo, das maracutaias e da esperteza destrutiva. Louvado seja Deus!
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia (MG)

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