Se a CPI é um instrumento legal e legítimo, se tem sido usada rotineiramente pela Câmara e pelo Senado para apurar desvios, por que o presidente Fernando Henrique tem tanto receio em vê-la constituída? A resposta: porque a CPI será usada como instrumento político para desestabilizar o governo, corroendo sua força e enfraquecendo a figura do presidente, que passaria a ser refém da base política, no momento-chave da condução do processo sucessório de 2002. Fernando Henrique enfraquecido interessa, claro, às oposições, que fariam avançar suas tropas sobre o campo de lutas, atirando no coração da administração, alardeando corrupção por todos os lados, exprimindo uma locução das mudanças e, desta forma, aplainando o terreno para os candidatos oposicionistas, sejam eles Lula, Ciro, Itamar ou Garotinho.
A estratégia das oposições está sendo alavancada por uma fatia situacionista, a partir do apoio de ACM e parcela do PMDB, que, como se sabe, está atrelado ao governo por decisão da Executiva Nacional do partido. Deduz-se, assim, que a fragilidade de Fernando Henrique interessa, também, a ACM e a setores peemedebistas. O senador baiano revigora-se com os ataques a Jader Barbalho e ao governo, passando a ser peça importante no traçado da chapa presidencial. Está o velho cacique usando de todos os meios para figurar no primeiro plano da cena política. Seu aceno positivo a Itamar é pura manobra de despiste, pois jamais o PFL somaria forças ao lado do extravagante governador mineiro. Sua intenção é, pois, fragilizar o presidente, a fim de poder usar seu trombone na indicação sucessória. Já a linha do PMDB que se afasta do governo - os senadores Maguito Vilela, de Goiás, José Fogaça, do RS, Roberto Requião, do PR, o velho cacique Orestes Quércia, de SP, o surpreendente Itamar, de MG - ao fazer a opção oposicionista, leva em consideração as conveniências políticas regionais, afora questões de natureza pessoal, como o rancor itamarino contra Fernando Henrique.
O presidente tem toda a razão em querer evitar a CPI. Um bombardeio, com o risco de morte súbita dos grandes contendores da batalha em que se transformará a CPI, respingará sobre a imagem governamental. À margem da batalha parlamentar, se desdobrarão as fofocas sobre mais fitas envolvendo o presidente e seu ex-ministro Luis Carlos Mendonça de Barros a respeito dos jogos de interesse em torno do programa de privatização das teles, além da recorrente história do dossiê Cayman. O lamaçal poderá afogar o governo, deixando as oposições dando gargalhadas no camarote pré-eleitoral.
ACM, por sua vez, endossa o posicionamento do ‘‘quanto pior, melhor’’, defendida pelas oposições, porque emergirá como paladino da moralidade, ícone da guerra moral, o que, convenhamos, pode ter certo impacto junto à opinião pública. Ocorre que tanto sua posição quanto a dos peemedebistas do B hão de passar, necessariamente, pelos canais dos partidos. E as cúpulas do PFL e do PMDB são, sabidamente, situacionistas. Mudança de rota só ocorrerá caso a situação social do País esteja balançando, o produto interno bruto da infelicidade nacional esteja alto e a economia, como um todo, navegando em águas tempestuosas. Nesse caso, as candidaturas próprias do PFL e PMDB poderão vingar, pelo menos para o primeiro turno.
O PMDB, nesse caso, até poderá contar com o intempestivo Itamar. Mas isso só acontecerá em última análise. Até porque Itamar, Quércia e Requião não pertencem à maioria que manda na Executiva Nacional do partido. Já no PFL, a bandeira situacionista é mais vistosa, sendo muito pouco provável que a cúpula entre no tom do trombone de ACM. Por tudo isso, não se deve apostar muito na CPI. Se for instalada, terá presidente e relator do PSDB e PMDB, respectivamente. Vai analisar o quê? Aquela imensa lista de denúncias? Haja tempo para completar a tarefa. Não deixará de ser, porém, um barulhento palanque para as oposições fazerem a festa.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e consultor político. E-mail: [email protected]

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