Tempos atrás, recebíamos de vez em quando, pelo correio, uma carta de um desconhecido, contendo uma mensagem fotocopiada. Primeiro, ela descrevia uma ou duas situações em que pessoas, passando por extrema necessidade financeira, ficaram, de repente, muito bem de vida. A seguir, a carta dizia o que era necessário fazer para que você também tivesse a mesma felicidade: bastava que fossem enviadas cópias daquela cópia a um número xis de pessoas. Chamavam isso de ‘‘corrente’’. Às vezes, vinha apenas com o texto de uma prece, outras vezes com uma cédula, equivalente a R$ 1, e então era necessário enviar a mesma quantia aos outros novos destinatários. A mensagem continha sempre uma advertência para que a ‘‘corrente’’ não fosse quebrada, senão ocorreria uma tragédia na vida de quem o fizesse.
Atualmente, ainda se recebem propostas dessas, só que via e-mail. E, decerto, ainda há pessoas que acreditam nisso.
No fundo, esse tipo de manifestação surge com base num defeito da mentalidade social nacional, pelo qual alguns cidadãos acreditam na possibilidade de mudar de vida usando expedientes misteriosos. Acreditam que é fácil gerar riqueza lícita, sem precisar trabalhar, sem precisar pagar o preço do esforço e da disciplina.
A maior parte do discurso político feito no cenário da atual campanha eleitoral parece se dirigir exatamente a esse segmento da sociedade. Ou são promessas fáceis, ou são reflexões fáceis – que, de tão fáceis, tornam-se levianas. Não raro, são propostas escancaradamente mentirosas, como, por exemplo, candidato a prefeito prometer realizar coisas que são atribuições exclusivas da Câmara de Vereadores ou do Congresso Nacional. Não falta quem diga que vai distribuir dinheiro público, facilitando a vida de meio mundo. E como ninguém vai pedir ao promitente que mostre de onde sairá o dinheiro, ele vai falando. E provavelmente seduzindo incautos. Porque nunca faltará quem acredite em ‘‘correntes’’ da felicidade, e dificilmente haveria tempo para educar os cidadãos a respeito dos meandros da administração do poder público.
Bem medidas e pesadas, algumas propostas podem revelar-se próprias de governantes autoritários, e o eleitor não percebe que, escolhendo-as, estará dando em troca uma boa parcela de seus direitos individuais, a começar pela liberdade.
Note o ridículo dessa proposta de plebiscito sobre pagar ou não a dívida externa. Para avaliar seu cabimento, basta observar quem são seus promotores: a CNBB, o MST, a CUT (ou seja, o braço eclesiástico, o braço revolucionário e o braço sindical do PT, respectivamente), com apoio de partidos políticos, todos de oposição ao governo federal. É mais um cartucho sendo queimado para tentar reanimar a tentativa de federalização das eleições municipais.
A idéia do plebiscito segue a mesma trilha das promessas e reflexões fáceis da campanha eleitoral. Em síntese, a pergunta é se o Brasil deve, ou não, dar um calote nos empréstimos externos. Notou? À parte os eufemismos e a tendenciosidade da propaganda, o que os organizadores da proposta querem é saber se você, brasileiro, aceita ser considerado caloteiro junto à comunidade internacional.
É o que alguns candidatos estão fazendo. Na verdade, com suas promessas, estão perguntando se o brasileiro aceitaria ter um autoritário como governante. Assim como os proponentes do plebiscito não estão dizendo que a dívida externa representa razoáveis 41% do PIB, nem que 60,2% da dívida pertence ao setor privado – o que a torna bem menos grave do que pintam os oposicionistas –, também os candidatos não contam a mágica que fará suas promessas se realizarem, e que implicariam em medidas autoritárias.
Agora, apesar de o brasileiro médio ter dificuldades para entender o economês, ele sabe muito bem o que acontece com quem não paga suas dívidas: o caloteiro fica com seu nome sujo na praça e tem seu crédito imediatamente cortado. Ele também sabe o que acontece quando vota sem pensar e acaba elegendo político oportunista.
Resta saber se o cidadão vai continuar acreditando em ‘‘corrente’’, se ele aceita ter sua boa-fé explorada, se ele concorda em eleger os agentes e as idéias do atraso, justamente no último pleito do século 20.
JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba.

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