A exemplo do estudo publicado, em março último, pelo IBGE, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-econômicos (Dieese), acaba de divulgar o trabalho que confirma a queda dos rendimentos dos trabalhadores no mercado formal durante a década de 90.
De acordo com os números apresentados esta semana, o trabalhador brasileiro, durante os anos 90, teve um decréscimo em sua remuneração de 8,7%. Tomando por base o estado mais industrializado do País, São Paulo, a renda média caiu de R$ 937, em Agosto 90, para R$ 855 dez anos depois.
Este achatamento é o somatório de vários indicadores negativos que condenou a década de 90 como perdida: índices de desemprego muito elevados, em torno de 7,7% da população economicamente ativa, descompasso entre a inflação e a remuneração e a ausência de planejamento e proteções na abertura do mercado brasileiro, que comprometeram a produtividade das empresas nacionais.
Atendendo a uma idolatria contábil, o modelo econômico brasileiro não priorizou a geração de novos postos de trabalho ou correção da pior distribuição de renda do planeta. O setor industrial foi penalizado e muitas empresas foram obrigadas a se ajustar cortando custos, principalmente, na mão de obra.
Paralelamente a uma acentuada contração na oferta de emprego, todas as tarifas públicas foram e continuam, gradualmente, sendo reajustadas. Alguns preços foram corrigidos em mais de 200%, como é o caso da gasolina, luz e telefonia. Desta maneira a inflação acumulada, só no período do plano real, já atingiu os 90%.
A expectativa, ainda incerta, de um crescimento de 4% a partir deste ano amenizaria o quadro do desemprego, mas ainda seria insuficiente e tímida diante do abismo social que temos a obrigação de corrigir nos próximo anos. Os economistas sustentam que a cada 1% de crescimento deveria haver 1% de redução na taxa de desemprego.
Um estudo recente do Banco Mundial, ainda mais preocupante, demonstra que para reduzir apenas a metade da pobreza nacional, que voltou a crescer, seria necessário um crescimento de 6% ao ano durante um período mínimo de 15 anos consecutivos. Tendo em vista a taxa média de crescimento dos últimos anos, 2,3%, não há espaço para otimismo se não humanizarmos a política econômica.
Um outro dado a ser considerado na pesquisa do DIEESE é o êxito de algumas categorias na obtenção de algum tipo de reajuste salarial. Mas esta recomposição se limitou a repor perdas com a inflação passada. A perspectiva de crescimento aliada a uma, ainda tímida, queda do desemprego irá permitir ambientes mais favoráveis para reajustes salariais.
Desta forma, voltamos a conviver com greves, paralisações de advertência e outras fórmulas de pressão trabalhista que haviam sido superadas pela luta da manutenção do emprego. Sem dúvida, é um sinal positivo e evidencia um movimento de crescimento na economia, que necessita ser contínuo e sustentado.
- RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça

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