A corporação maldita
Deve o executivo de uma corporação ter alguma outra responsabilidade na empresa além da de ganhar o máximo de dinheiro para seus acionistas? Minha resposta é: não. (Milton Friedman)
J. Roberto Whitaker Penteado
Durante a semana que passou, ocorreu duas vezes comigo: precisava falar com um amigo de muitos anos, diretor de importante empresa multinacional e recebi, pelo telefone, a informação de que não trabalhava mais na empresa. Seu substituto ainda não fora nomeado. Minha seria, portanto, a ansiedade de esperar, para descobrir quem vai ser meu próximo interlocutor para o importante assunto que tenho a tratar com essa empresa.
O ano ainda é bem jovem e já aconteceu em diversas corporações: trocaram o presidente. O executivo que havia tão bem servido aos interesses da empresa durante 10, 20 anos, subitamente não prestava mais. Estava fora, ‘‘out’’, demitido.
As emoções negativas - nesses casos - são tão fortes, que as partes mal conseguem disfarçar. O novo presidente - ou o seu superior imediato, da matriz, em Miami, Londres ou N. York - declara à imprensa: agradecemos a importante colaboração do Sr. Fulano de Tal, mas ele decidiu deixar-nos para cuidar de outros interesses, pessoais... E o Fulano, despedido, mas recebendo um tapa-boca, na forma de algum tipo de indenização de médio prazo, afirma: Já estava pensando há algum tempo em dedicar-me integralmente a esse novo projeto, etc. etc. Na maioria dos casos, estará assumindo um novo emprego, numa outra multi, em pouco tempo. Em outros, tornar-se-á, de fato, empresário. Mas com frequência, também, o evento marcará o início de uma trajetória descendente que poderá conduzir ao desespero, à doença e até à morte...
Nesse último fim-de-semana, assistia, em casa, a um vídeo - Things I never told you (traduzido como ‘‘Confissões de um apaixonado’’) e um dos personagens, um corretor de imóveis, fazia o seguinte comentário:
- Agora, viajo pelo país vendo edifícios comerciais. Assim, não me preocupo mais se as pessoas serão felizes ou não, porque já sei que não serão...
Daqui a uns 50 ou 100 anos, quando um Peter Drucker do futuro estiver estudando o management da nossa época, ficará provavelmente intrigado com o descaso com que as organizações do século 20 trataram a questão da realização e da felicidade pessoal dos seus colaboradores.
A ninguém enganam os refrões. Se Fulano foi útil e produtivo durante duas décadas, se a empresa cresceu e teve bons resultados, simplesmente ele não pode ter ficado ruim, incompetente, perdido o tesão, brochado na sua relação animística com a corporação... Ao longo de muitas décadas de participação direta e indireta nesse processo acho que concordo com a explicação dos especialistas que diagnosticam que o que ocorre, nesses casos - desde o do presidente ou executivo principal até os escalões intermediário de chefia - são simples e brutais refregas para disputa de poder. A saída de uma pessoa determinada beneficia outra (ou outras), na busca do aumento de seu poder e dos benefícios materiais que daí advêm.
Em que pese o alerta pessimista de Friedman, concordo mais com as palavras de um outro especialista, James Beré, presidente da Borg-Warner que escrevia, num artigo de 1978 da ‘‘Management Review’’: Há muitos recursos não-explorados dentro das corporações e o maior deles é a energia do espírito humano.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola de Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

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