O jovem doente acordou da anestesia. Sim, às vésperas de seus 500 anos, na virada do milênio, o Brasil dormia numa letargia guardada na esfericidade de uma bola de futebol. Foram 33 dias de coma profundo. O desemprego brutal e a fome no Nordeste simplesmente foram esquecidos. Assim como as altas taxas de juros, o déficit na balança comercial e a sucessão dos governadores, do presidente e a eleição de deputados.
Nélson Rodrigues certamente está lá do outro lado procurando uma explicação. Mas nem mesmo do além se pode explicar o inexplicável. Neste domingo, 12 de julho, a Pátria calçou suas chuteiras pelo avesso e deu no que deu: uma goleada da França sobre um apático time que, definitivamente, entrou em campo sem alma.
Nesta segunda-feira 13, ando pelas ruas e vejo que há um brilho a menos nos olhos dos brasileiros. A realidade tem o poder de ofuscar aos pouquinhos o orgulho de ser pentacampeão, mesmo que isso habite apenas o campo onírico do espírito nacional. Não somos penta. Não somos campeões. Somos apenas vice.
Nesta terça-feira 14, o presidente Fernando Henrique Cardoso vai receber o nosso time. Imagino que teremos o maior encontro de sorrisos amarelos do mundo. Menos mal, o homem é candidato à reeleição e mais do que qualquer outro iria faturar o título na França. Não. Não exagero. Já vi o mesmo filme em 70.
Vivíamos os terríveis anos do ‘‘Brasil: ame-o ou deixe-o’’. A Seleção ganhou a Copa de 70 no México e imediatamente o presidente-militar Emílio Médici recebeu o time. Fotos aos milhares foram distribuídas pelo País. A associação da propaganda oficial era a mais simples possível: se eles venceram, a pátria também vencerá.
De imediato, projetos tão gigantescos como a conquista do tricampeonato começaram a tomar corpo fora das pranchetas. O País iria para frente com a Transamazônica, com a Ponte Rio-Niterói, com o programa atômico e com o pau comendo nos porões da ditadura. Só voltamos à realidade em 74, quando o mesmo Zagallo deu vexame na Alemanha.
O Zé da Esquina (meu xará) acordou ontem e foi receber o seu seguro- desemprego. Não tinha direito a nada, quase não trabalhou no ano passado. Os filhos estão fazendo bico, fora da escola, engraxam sapatos, vendem picolé. A mulher - grávida novamente. Carne - nem pensar. Zé anda olhando fixamente o chão. Na esquina pára, olha para o céu: ‘‘Talvez em 2002’’. Não sei se isto é fé, otimismo exagerado, ou se a fome crônica mexeu de vez com a cabeça de boa parte do nosso povo.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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