A privatização da Companhia de Energia Elétrica do Paraná (Copel) traz embutida mais consequências do que o governo do Estado admite publicamente. Entre elas, está a ameaça de que a alternativa mais viável para o abastecimento de água na Região Metropolitana de Curitiba acabe nas mãos de grupos privados nacionais ou estrangeiros, obrigando os paranaenses a terem que pagar caro pela água que vão consumir no futuro.
Para compreender esse risco, basta analisar as alternativas que a região tem hoje para garantir seu abastecimento nos próximos anos. O Plano Diretor elaborado pela Sanepar para garantir o abastecimento de água da Região Metropolitana de Curitiba sofreu alterações, em função da ocupação urbana desordenada e pelo crescimento populacional verificado nos últimos anos, principalmente pelas decisões que levaram ‘a instalação de indústrias em áreas de mananciais destinadas à preservação.
Atualmente, o abastecimento na região é garantido pela captação do Rio Iguaçu às margens da BR 277, onde as condições sanitárias são precárias e fora dos padrões de qualidade; pela captação do Rio Passaúna, em barragem, manancial com preservação assistida, mas onde há interferências de atividades agrícolas, industriais, de ocupação habitacional (esgotos sem tratamento e águas pluviais), do tráfego de cargas tóxicas, além de grande quantidade de matéria orgânica proveniente do crescimento de algas (para os padrões exigidos, terá vida útil encurtada); pela captação do Rio Iraí, manancial que vem sendo degradado pela intensa ocupação urbana da bacia, já possivelmente, com padrões de qualidade deteriorados; pela utilização de águas subterrâneas da formação calcária existentes ao norte, onde os padrões de qualidade são atendidos, mas que têm provocado constantes desabamentos e possui capacidade limitada; por pequenas captações em poços e rios em toda a área metropolitana; pela captação futura das águas da barragem do Rio Iraí, em 2002. A qualidade da água sofrerá as mesmas interferências que acometem as águas do Passaúna.
Das possibilidades ainda não exploradas: Rio Açungui, Rio da Várzea, e barragem do Rio Capivari, acreditamos que a melhor alternativa, que pode dar uma solução definitiva para a questão é o Rio Capivari.
A Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira, pertencente à Copel, tem pequena participação no sistema gerador de energia elétrica, produzindo apenas 125 megawatts. Mas por outro lado, a barragem formada para a usina criou um reservatório com volume satisfatório, suficiente para atender ‘a Região Metropolitana de Curitiba com água de boa qualidade, que terá um custo de potabilização muito mais baixo do que os mananciais utilizados atualmente.
Além disso, por situar-se em região topográfica mais favorável do que os rios da Várzea e Açungui, o reservatório é favorecido também pela redução do custo para bombeamento. As águas, após gerarem energia nas turbinas instaladas na região do litoral, fluem para o Rio Cachoeira, e poderiam ser aproveitadas para abastecer todo o litoral do Estado nas zonas de concentração ambiental. Benéfica solução nas duas pontas de seu aproveitamento, encaixa toda a sua bacia com a área de preservação permanente em uma região de reduzida ocupação humana.
Dentro desse raciocínio, o melhor a fazer seria o governo do Estado retirar do processo de privatização da Copel a usina e seu reservatório, já que se trata de um manancial de importância estratégica capaz de garantir o abastecimento da capital com água de qualidade superior ‘a utilizada atualmente.
É preciso considerar que a Copel está em fase adiantada de privatização, que incluiria hoje a Usina de Capivari-Cachoeira. Caso a usina continue de propriedade da companhia de energia, mais tarde esse manancial pode cair nas mãos de empresas estrangeiras, que pouco ou nenhum compromisso tem com a política de abastecimento de nosso Estado.
Se nada for feito, corremos o risco de em breve ter que pagar (e caro) a uma empresa estrangeira pela água que consumimos em Curitiba. Para permitir a paralização da produção de energia e a utilização do manancial, o futuro comprador da Copel poderá exigir uma indenização de milhões de dólares, cobrando pelo evidente valor estratégico que o reservatório terá como principal alternativa de abastecimento da região.
Caso o governo não tome uma decisão imediata, logo os moradores de Curitiba e cidades vizinhas poderão estar pagando a água mais cara do mundo, enriquecendo investidores estrangeiros. Ou seja, podemos chegar à absurda situação de ter que pagar caro pela água que hoje é nossa, mas amanhã estará nas mãos de interesses privados porque o governo está mais preocupado em resolver seus próprios problemas imediatos de caixa, causados por uma administração irresponsável e pródiga em gastos inexplicáveis.
Urge à sociedade paranaense organizada e aos representantes políticos da população exigir providências do Estado no sentido de garantir às futuras gerações, água de boa qualidade, saúde e respeito pela vida. Não podemos adiar essa solução, sob o risco de sermos responsabilizados no futuro. A saúde de nossos filhos e netos depende desta decisão.
- MAX ROSENMANN é deputado federal pelo PSDB-PR

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