''A Copel é Nossa!''
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de agosto de 2002
Luiz Antonio Rossafa 
Transcorrido um ano da memorável campanha em defesa do patrimônio público estadual, as forças vivas da sociedade ainda guardam a lembrança da luta contra a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel) como um bom exemplo de cidadania plena a ser seguido. A organização da resistência dos paranaenses serviu como parâmetro para outros estados que também esboçavam movimentos idênticos anti-alienação de ativos estratégicos das energéticas.
O repúdio à venda da Copel, segundo diversas pesquisas de opinião, alcançava 97% dos paranaenses. Essa quase unanimidade só foi possível graças à manifestação de vastos segmentos representativos do capital e do trabalho, que uniram-se para o bem do Paraná em torno do Fórum Popular Contra a Venda da Copel. Mais de 400 entidades da sociedade civil organizada ficam para a história por terem feito a história da maioria, dos vencedores: o povo.
Somente a ação consciente, cívica e patriota pôde barrar a sanha privatista dos governos de plantão. O vigor dos paranaenses nos combates travados durante a ''guerra da Copel'' irradiou a esperança e a luz País afora, culminando com o abandono pelo governo federal da política de transferência de ativos às companhias estrangeiras. Ou seja, o bom exemplo das araucárias derrotou o modelo neoliberal destinado ao setor energético; detonou as privatizações das empresas estratégicas e lucrativas que pertencem aos brasileiros.
O caminho trilhado pelos movimentos populares na campanha ''A Copel é nossa!'' foi espetacularmente inteligente. Combinou a discussão técnica, o conteúdo, com manifestações das ruas e das praças. Quando necessário, expôs ao constrangimento deputados estaduais ''traidores do povo'', que votaram pela venda da estatal e contra o projeto de iniciativa popular; denunciou evidências de irregularidades governamentais nos contratos com empresas privadas de amigos dos diretores da estatal paranaense.
Neste aniversário de um ano da ocupação da Assembléia Legislativa do Paraná, 15 de agosto, marco histórico da cidadania, tem que haver a festa da democracia. A resistência heróica do povo paranaense ao conceito de globalização tem que ser aplaudida em pé. Ela (a globalização) trouxe, além da miséria, a compreensão da necessidade da combater unitariamente as teses do mercado e da desregulamentação política e econômica de países em desenvolvimento.
Depois dos embates no Brasil, acerca da crise energética, assistimos aos protestos contra a privatização do setor elétrico no Peru e à repressão violenta do exército do presidente Alejandro Toledo, mais um preposto do Fundo Monetário Internacional (FMI) na América Latina.
Quero aqui registrar homenagens especiais aos profissionais do sistema CREA-PR, que contribuíram nas discussões técnicas durante o processo de luta contra a privatização da mais eficiente e lucrativa empresa dos paranaenses; e, aos profissionais da imprensa que merecem ser lembrados pela coragem mostrada nas coberturas jornalísticas, sem medo de se posicionarem em vários momentos dos embates.
O reconhecimento público a esses profissionais faz com que seja valorizada e incentivada a noção do exercício da cidadania, pois acredito que as profissões que possuem reserva de mercado de trabalho têm o dever ético e moral de estarem na vanguarda das reivindicações sociais. E algumas estão cumprindo com sua obrigação. Trata-se de um retorno justo à sociedade que carece de transformações e melhorias na qualidade de vida. Por outro lado, ao mostrarmos nossa posição nos embates, estaremos executando os princípios da Responsabilidade Social na prática. Ficar em cima do muro ou ser omisso significa jogar a sociedade à miséria eterna. Seria uma prática desumana e covarde.
LUIZ ANTONIO ROSSAFA é presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Paraná (CREA-PR) e foi coordenador do Fórum Popular Contra a Venda da Copel.


