A Copa seguinte
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de julho de 1998
Joel Samways Neto 
Terminada a Copa do futebol, começa a copa eleitoral, no Brasil. Grandes lances, grandes jogadas, grandes partidas, são as promessas do próximo pleito. Os técnicos (os coordenadores de campanha) estão todos muito otimistas, contando vantagem, afirmando categoricamente que seu time (seu partido ou sua aliança) vai ganhar. Os jogadores (os candidatos) já estão falando que vão jogar o seu jogo, só na bola, indo pra cima dos adversários, respeitando as regras (da democracia e do Superior Tribunal Eleitoral).
Claro que todo mundo gosta de ver é time ofensivo, que joga pra frente, marcando forte e dividindo todas as bolas. O problema é que na copa da política os partidos políticos são ofensivos demais. Os candidatos atendem a torto e a direito. Pelo menos tem sido assim. Ao invés de criticarem as idéias do adversário, muitas vezes arremessam ofensas contra a pessoa do adversário.
Não é só isso. Apesar das advertências da Justiça Eleitoral, são frequentes as jogadas desleais. Os candidatos entram de carrinho, por trás, atingindo em cheio o tornozelo moral de seus opositores na disputa. Jogada maldosa, mesmo. Fazem falta sem bola a cada instante. A grande área da ética, da dignidade, é o palco usual das transgressões. E ainda tratam a arbitragem com desdém - pudera, os processos judiciais são tão demorados que quando pinta um cartão vermelho de uma sentença condenatória, acabou a partida, o campeonato inteiro, o candidato que cometeu a falta conseguiu ficar até o apito final de seu mandato, e aí o cartão vermelho cai no ridículo.
O problema da ausência do espírito esportivo na disputa eleitoral é que quem sai perdendo é o eleitor, é o País, é a democracia. Com as regras sendo desrespeitadas não vence o melhor, vence o mais espertalhão.
Claro que, assim como no futebol é possível ludibriar o juiz, pode-se também enganar os controladores das regras democráticas. Infelizmente, ainda há pessoas que consideram normal, por exemplo, a venda do seu voto. Vendem sua ferramenta de construção, conservação e manutenção da liberdade - o direito de votar - a troco de quinhentos mil-réis, ou muito menos do que isso. E tem eleitor que ainda se acha sabido, porque logrou o candidato, que nunca lhe dera nada, arrancando-lhe cinquinho, quinzinho, algo assim, ou até por meia cesta-básica.
E os transgressores costumam se justificar alegando que há regras paralelas, subterrâneas, que engolem as regras democráticas, estabelecidas por lei. Dizem que são as regras reais, decorrentes da lei da selva, da lei do mais forte. Na verdade, isso não são regras, porquanto regras, inclusive as regras ditatoriais, implicam em limite. E essas atitudes antidemocráticas não têm limite algum.
A copa da democracia tem permanecido um pouco encalhada no charco das coisas que são assim mesmo, das coisas que não mudam nunca, lá onde prevalece a politicalha, onde não importa mentir para o eleitorado - desde que ele entregue seu voto de confiança.
A única saída para se superar totalmente essa crise é o eleitorado valorizar mais o comportamento civilizado. Vamos aos debates de idéias, vamos às fundamentações das propostas. Quem propuser melhor, quem explicar melhor, convencerá melhor. Um dia, não sei quando, há de ser assim o pleito eleitoral brasileiro.
Atualmente, os técnicos (os coordenadores de campanha) defendem os lances escusos porque se seus candidatos se comportarem muito civilizadamente, perderão a eleição. Daí vêm com aquelas pantomimas de socar a mesa, de xingar o adversário, de inventar, ou agravar histórias desairosas a respeito dos concorrentes etc. (Exemplo clássico desses disparates eleiçoeiros, no Paraná, foi a encenação do jagunço Ferreirinha, lembram-se? A estória do jagunço que deu depoimento atacando a família do adversário do PMDB, em 90. O depoimento foi filmado e usado no horário eleitoral. No fim, era tudo armação dos técnicos da campanha requiônica.)
Quero dizer, nesse vale-tudo, vale fazer gol com a mão para ganhar o jogo. O candidato ganha ajoelhado, mas ganha.
Agora, em que pesem as deslealdades, a democracia vai avançando, o eleitorado vai amadurecendo. A grande maioria dos eleitores já está se sentindo mal de ver seu partido vencer na base da roubadinha.
E a tendência da náusea é ir aumentando até curar a mentalidade social.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná


