A Copa e infraestrutura
Uma das armas para justificar a Copa do Mundo de 2014 no Brasil é a soma de investimentos que seriam praticados nas praças onde houver jogos. Daí a onda de metrô, por exemplo, e outros aperfeiçoamentos na estrutura urbana. No caso de Curitiba é ridícula a pretensão de uma linha pela metade, menor do que a de Cândido de Abreu, quando prefeito com seus 35 quilômetros de linhas de bondes, não alcançando todo o corredor norte-sul.
Uma reportagem desta FOLHA na semana passada expôs outro problema comum no País: o mau estado das calçadas. Se falamos em mobilidade e acessibilidade, essa questão vem à tona com toda a veemência. Londrina não é sede de jogos, mas pode habilitar-se com centros de treinamento - a cidade teve o Estádio do Café e mais dois centros de treinamentos (PSTC e SM Sports) pré-selecionados pelo Comitê Organizador da Copa para servirem como locais de treinos para as seleções estrangeiras - e, em consequência, deveria estar bem posta nesse quesito, o do calçamento.
Há uma conveniente justificativa do poder público para não assumir qualquer responsabilidade sobre a questão: essa atribuição, a de zelar pela extensão da propriedade na calçada, é do proprietário. Ao aplicar, por exemplo, normas de arborização pública a prefeitura acaba invadindo a área e submetendo-a ao risco, conforme a espécie vegetal, de afetar gravemente o calçamento, desnivelando-o e expondo o pedestre a riscos.
Em São Paulo surgiu, muito antes da febre das ONGs, uma instituição voltada para os direitos do pedestre. Sob o fundamento de que àquela época havia cerca de 8 milhões de caminhantes pela maior cidade da América do Sul, registro anotado nas pesquisas sobre mobilidade e deslocamentos, o engenheiro e economista paranaense Eduardo José Daros, que já foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), desfraldou a bandeira da causa criando uma entidade nacional de defesa do pedestre. Os estudos abrangem todos os aspectos da questão e dos conflitos com outros meios de transporte e com a própria condição do calçamento.
É em questão singela como essa que se percebe a inutilidade do ''pacote'' de benesses da Copa de 2014, como a da mobilidade. Nenhuma das sedes terá esse item com um mínimo de atendimento.





