Começou a primeira Copa do terceiro milênio. O Brasil (em busca do pentacampeonato) estréia segunda-feira, às 6 horas, jogando contra a Turquia. Depois, o Brasil deve enfrentar a China, dia 8, às 8h30. O duro vai ser o jogo contra a Costa Rica, dia 13, às 3h30 da madrugada.
Para nós, que estávamos acostumados com os jogos da Copa quase sempre no período da tarde, vamos estranhar bastante o ritmo deste Mundial, especialmente se o Brasil fizer uma boa campanha, porque irá forçar uma mudança de rotina bastante incomum na vida dos brasileiros.
É difícil imaginar que não haverá envolvimento e emoção nos dias em que o Brasil deverá jogar, porque talvez, apesar da decepção do jogo contra a França, na final de 1998, a Copa do Mundo continua sendo este grande espetáculo esportivo, a contagiar milhões de torcedores, mesmo aqueles que não são muito apaixonados por futebol, mas que acabam participando da corrente nacional que se forma em favor do Brasil, na torcida pela conquista de um novo título.
O tempo passa. Já vão para 20 anos desde que a melhor de todas seleções (depois da conquista do tricampeonato, em 1970) das últimas gerações atuou nos gramados da Espanha, sob o comando de Telê Santana. Inesquecível foi aquela campanha. Até hoje, muitos lembram da letra da música que dizia assim: ‘‘O rei aqui é Pelé, na terra do futebol, olé é bola no pé, redonda assim como o sol, seja no Maracanã, ou no gramado espanhol...’’
Mesmo conquistando o tetracampeonato em 1994, o Brasil nunca esteve tão empolgante quanto no Mundial de 1982. Talvez tenha sido a última vez que prevaleceu o futebol-arte sobre o futebol-técnico-pragmático dos dias atuais. De 86 para cá, os jogadores foram perdendo em criatividade e ousadia, em charme e talento inventivo. Moral da história: já não foi mais possível lances geniais. A camisa-de-força do pragmatismo condicionou os jogadores a um estilo demasiadamente tecnicista.
A Copa deste ano pode não ter o mesmo fulgor das campanhas das décadas de 80 e 90, primeiramente porque não temos mais o futebol-arte, e apenas o futebol-técnica. Depois, porque os horários dos jogos não irão motivar aqueles que já não estão muito confiantes na seleção de Luiz Felipe Scolari, que vetou a participação de Romário, assumindo todos os riscos desta decisão. Só mesmo se os jogadores fizerem uma brilhante atuação, com vitórias estupendas é que, talvez, farão com que as pessoas se animem a levantar às 3 horas da manhã para assistir às partidas. Caso contrário, poderemos ter a Copa mais morna de todos os tempos. Torçamos então para que o time de Scolari seja valente e vitorioso, para tirar o povo da cama e fazer com que o Brasil vibre com seu característico entusiasmo. Tomara a Deus que o Brasil chegue à final (e que o jogo não seja às 3 e meia da manhã!). De qualquer forma irá depender muito do desempenho da seleção, para que tenhamos, nas próximas semanas, animadas madrugadas e festivas alvoradas.
- VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e diretor-geral da Faculdade Editora Nacional (Faenac)

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