O Brasil paga caro por uma dependência que deveria ser tratada como questão estratégica. Entre janeiro e julho deste ano, os produtores brasileiros desembolsaram R$ 44,8 bilhões na compra de fertilizantes, 7,3% a mais que no mesmo período de 2025. No mesmo intervalo, o volume importado caiu 7,4%. O país gastou mais para comprar menos.

A alta dos preços tem relação com um cenário internacional marcado por guerras e instabilidade nas rotas comerciais. Rússia e Ucrânia têm peso nesse mercado, enquanto as tensões no Oriente Médio afetam petróleo, enxofre e fertilizantes nitrogenados e fosfatados. O problema é que essas crises encontram no Brasil uma vulnerabilidade conhecida: entre 80% e 85% dos fertilizantes utilizados no país vêm do exterior.

O Brasil continuará integrado ao mercado internacional e dependerá de fornecedores estrangeiros. Mas uma atividade central para a economia e as exportações não deveria ficar tão exposta a conflitos e decisões tomadas a milhares de quilômetros daqui.

Fertilizantes estão entre os principais custos das lavouras e têm peso relevante em culturas como trigo, milho e feijão. Quando os preços sobem, a margem do produtor encolhe e a pressão pode chegar à cadeia de alimentos.

Há um risco ainda maior: na tentativa de reduzir despesas, o produtor pode cortar justamente um dos insumos que sustentam a produtividade. Usar menos do que a cultura necessita, sem respaldo técnico, pode comprometer a produção e pressionar os nutrientes do solo. A resposta à alta não deveria ser simplesmente aplicar menos, mas usar melhor.

Agricultura de precisão, análise de solo, fontes alternativas, fertilizantes organominerais, inoculantes e biofertilizantes podem reduzir desperdícios. Em Londrina, a Embrapa Soja acumula décadas de pesquisas sobre fixação biológica do nitrogênio, área em que se destaca a cientista Mariangela Hungria. Na soja, a associação com bactérias permite obter da atmosfera o nitrogênio necessário ao desenvolvimento da planta e pode substituir a adubação nitrogenada convencional.

É um exemplo de como a ciência produzida no país pode reduzir a necessidade de um insumo importado. Não elimina a importância de fósforo e potássio nem torna o Brasil independente do mercado externo, mas mostra que a segurança da agricultura também passa por saber produzir mais com os recursos disponíveis.

A dependência externa não será resolvida de uma hora para outra, mas é preciso se antecipar e buscar saídas para que o agronegócio brasileiro não fique refém das tensões globais.

Obrigado por ler a FOLHA!

mockup