A construção do novo - Tarcísio Vanderlinde
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de junho de 1998
Tarcísio Vanderlinde 
A euforia era grande. Mercedes, um próspero distrito de Marechal Cândido Rondon, iria ter uma agência bancária. Fazia-se final dos anos 70, tinha passa à era do milagre brasileiro e a mecanização agrícola já se houvera consolidado no Oeste do Paraná. A implantação de uma agência bancária naquela aldeia onde eu morava, dava um charme especial. Era na verdade um sinal visível de status. Bem antes da emancipação política, que viria só no início dos anos 90, este acontecimento acabou concedendo uma certa maioridade à vila. Enfim, tudo aquilo era interpretado como desenvolvimento, e apontava para um futuro próspero.
Naquela época, eu lecionava no Colégio Cenecista Willy Barth, e tinha como hábito registrar, através de slides, o que de relevante ia acontecendo por ali. Sem precisar me esforçar muito, lembro da primeira interiorização do governo municipal no distrito, da inauguração do telefone, da água tratada e encanada, da visita do governador Canet descendo de helicóptero no campo do Grêmio, enfim, de dezenas de cenas do cotidiano na escola e na comunidade. Fique atento quando começaram a adequar uma casa na avenida, para receber as instalações de uma agência bancária. Acompanhei passo a passo, até a inauguração, sempre clicando na minha Olimpus. Na primeira semana de atividades, a exemplo dos meus compatriotas, também ali abri uma conta. Agora eu poderia me orgulhar de que eu morava em Mercedes, onde, além de hospital, escola de 2º grau, tinha também um banco.
Lembro ainda que, quando a agência começou a funcionar, tinha quase duas dezenas de funcionários e, nestes quase 20 anos de saudosas lembranças, quantas pessoas como eu não teriam uma história para contar sobre o Banco Bamerindus, da Av. João XXIII. Há poucos meses, quando ali retornei, não deixei de sentir uma certa nostalgia ao perceber não mais que três funcionários em atividade. Num rápido bate-papo com o gerente, comentei sobre a recente mudança de nome do banco e até perguntei quando viria a nova placa.
Recentemente fique sabendo que a nova placa sequer chegou a vir, muito menos instalada. Algo já estava sendo anunciado: O banco da nossa terra não chegou a completar duas décadas de vida em Mercedes. Num comunicado personalizado, o HSBC me avisou que estava encerrando as atividades em Mercedes a partir de 12 de junho de 1998, por motivo de reestruturação na sua rede de agências.
Não vou me deter aqui a contar o quanto a população de Mercedes ajudou o Bamerindus - ou foi o contrário? A verdade é que surgiu uma tal de globalização, trazendo uma série de novidades, como enxugamento, reengenharia, flexibilização, fusão, otimização de lucros, exclusão, além de outros imperativos, que ao final de contas decidiu pela extinção do Bamerindus em Mercedes, e dos poucos empregos que a casa ainda preservava. Eu diria, em resumo, que na era das global players, o HSBC, novo dono do Bamerindus, riscou Mercedes e mais duas dezenas de cidades do Paraná do seu mapa de interesses econômicos globais.
Essa novidade da globalização, que já existia há muito tempo, mas que só agora passou a ser mais conhecida e intensa, deverá, a exemplo de El Ni¤o, provocar ainda muitos estragos. Ela atingiu também a minha vila, destruindo sonhos, provocando perplexidades dos mais jovens aos mais velhos, em que a extinção de uma agência bancária pode ser considerada apenas um dos sintomas de sua perversa presença.
O mundo mudou, está mais perto. Quem não vê estas mudanças pela parabólica, acaba de uma ou outra forma sentindo sua presença agressiva no seu dia-a-dia. É preciso entender, mais do que nunca, embora muitas vezes contrariado, que não se podem mais manter as antigas ilusões. Faz-se necessário, a partir de novas idéias, sonhar o novo e construir as novas utopias, independentemente de se ter um banco a mais ou a menos. A preservação da qualidade de vida, por exemplo, as articulações que se podem fazer em torno disso, é certamente muito mais significativa do que a preservação de um banco. Não me consta, e a história pode muito bem comprovar isto, que banco tenha que ser necessariamente sinônimo de qualidade de vida.
Não sei se a nossa vida não seria melhor sem bancos. Parece que é um mal necessário, nestes tempos modernos. De qualquer forma, Mercedes, ao menos por enquanto, não ficará sem serviços bancários, haja vista a permanência naquela cidade de postos de serviço do Banco do Brasil e do Banco de Crédito Cooperativo. Resta saber apenas até quando haverá o interesse na manutenção desses serviços. Neste sentido, o exercício da criatividade, como possibilidade emergente, pode transformar-se num instrumento poderoso a nos manter otimistas no alvorecer deste novo milênio.
Milton Santos, o maior geógrafo da atualidade no Brasil e um dos severos críticos da globalização, destaca que sempre haverá uma esperança possível, diante de um território que se desorganiza em decorrência do que ele chama de pseudoglobalização, ou seja, uma globalização de mentira, sem proposta social, que exclui muita gente e beneficia poucos. Esta esperança estaria numa globalização alternativa que poderia ser construída nas horizontalidades, fundamentada na criatividade e na solidariedade humana. Acredito que há uma grande probabilidade de visualizar o novo a partir de uma postura como esta. Eu começaria a caminhada por aí.
- TARCÍSIO VANDERLINDE é docente da Unioeste


