Junker de Assis Grassiotto

A taxa de desemprego, em nível nacional, deverá atingir rapidamente, nos próximos meses, 10% e, muito provavelmente, continuará subindo, estando hoje em 7,6%, de acordo com o IBGE, e em ascensão de cerca de 1% ao mês, como tem sido constatado a cada publicação de novos dados. Esse é o lado mais perverso da crise em que estamos mergulhados. E o pior é que não se enxerga mudança no curto prazo. Os indicadores tendem a se deteriorem ainda mais, sem qualquer previsão de reversão. O ambiente político é muito ruim e gera insegurança para todos nós. As pessoas, com razão, estão se negando a comprar e, sem haver compras, a máquina da economia para.
No comecinho do ano a primeira atitude da dupla Levy/Dilma foi interromper o fluxo financeiro para todos os setores sobre os quais tinham controle, alegando economia e corte de gastos. Deixaram, principalmente, de pagar contas pendentes (vencidas). Segundo dados do último dia 4 deste mês, publicados no Painel da Folha de S.Paulo, nos contratos do "Minha casa, Minha Vida" o valor dos atrasados chega a R$ 1,5 bilhão. Esse é só um exemplo: o governo ao não pagar seus compromissos, gera o caos. Um caso pequenininho, mas importante para nós: a Prefeitura de Londrina não recebeu os valores acordados com o governo federal nos convênios em andamento, as obras pararam e, agora, na semana passada, o prefeito resolveu, numa sábia decisão, tocar com recursos próprios os serviços, ainda que em detrimento de outros, para que a deterioração e o vandalismo não trouxessem danos irreparáveis à população. No país inteiro isso está acontecendo em todas as obras que dependem de recursos federais, grandes – como a transposição do São Francisco – e pequenas – como as da nossa cidade (o acesso à UEL está nessa lista).
Por conta da crise, o setor da construção, um dos maiores empregadores do país, diminuiu em mais de 446 mil o número de seus empregados com carteira assinada, nos últimos 12 meses, até agosto. Reduziu de 3,56 milhões para 3,1 milhões seu número de trabalhadores, de acordo com estimativa do SindusCon-SP e da Fundação Getúlio Vargas. A previsão é que o número de vagas caia mais 500 mil, até o final do ano.
A visão do governo é míope. Reportando, especificamente, ao caso da construção civil, ramo ao qual pertenço, afirmo que não somos problema, somos solução. Este setor tem algumas características muito próprias, dentre as quais destaco: a) é grande gerador de emprego; b) o emprego que gera beneficia as pessoas menos qualificadas; c) o custo de geração desses empregos é muito baixo, por unidade de capital empregado; d) não depende, basicamente, de produtos importados; e) é o setor que primeiro desacelera e o último que retoma, pois depende de investimento, que resulta da poupança; f) uma obra sempre é demorada, por isso o setor cai lentamente (desaquece), mas a queda é continuada (cada obra que termina e não é reposta gera dispensas incontroláveis, se não houver novas possibilidades de empreender; g) depende de recursos financeiros de terceiros, em função dos valores envolvidos. Decorrente dessas características, a construção civil é solução e não problema. Quando se tem uma crise de desemprego, normalmente os governos federal, estadual e municipal investem na construção (vide a saída da crise de 29 nos Estados Unidos, o pós 64 no Brasil, o plano cruzado e o pós FHC), em que as obras foram incentivadas. Nos últimos anos a construção contribuiu fortemente para que a taxa de desemprego caísse a níveis mínimos, ao redor de 4,5%. O governo não pode ignorar essas considerações e interromper tal ciclo virtuoso, sob pena de ampliar brutalmente a crise social.

JUNKER DE ASSIS GRASSIOTTO é engenheiro civil, mestre e doutor em Arquitetura e Urbanismo em Londrina



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res.
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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