Falar sobre o Dia Internacional da Mulher, para mim, é fazer uma reverência ao que está associado à sua figura, sua história, suas lutas, suas conquistas, seu papel como cidadã na transformação da nossa sociedade. Reverencio a todas as mulheres, elegendo como símbolo deste dia alguém cujo feito deve ser semelhante ao do personagem que inspirou a frase de Jean Cocteau: ‘‘Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.’’
Marli Terezinha Toppe é o nome da personagem dessa história, que vamos começar a narrar pelo final. Sua última conquista: depois de perder o emprego, aos 36 anos, pelas mesmas razões de milhares de trabalhadores em todo o País, ela conseguiu uma vaga oferecida pela Chrysler, há oito meses, na estação de transferência do departamento de pintura da empresa. Detalhe: disputou a vaga com sete homens, em testes que se estenderam por um mês.
Mas não foram o nível escolar nem as habilidades para a função, de que ainda não dispunha, os fatores decisivos para a sua vitória. Foram a vontade, a garra e a determinação, ancoradas na grande confiança que ela tem em si própria. ‘‘Eu nem sabia que estava concorrendo com sete homens, mas em nenhum momento vi barreiras. Como sempre, na minha vida, acreditei que ia dar tudo certo’’, revela. Do ponto de vista da empresa, onde as mulheres são 20% do quadro funcional, esse é o perfil dos profissionais que a empresa busca, ‘‘para formar equipes motivadas e dinâmicas’’.
Voltando 180 graus na vida de Marli, uma funcionária que a empresa Chrysler aponta como exemplar, encontramos uma história que começa de forma idêntica à da maior parte do nosso povo. A Marli criança, campo-larguense como toda sua família constituída de mais sete irmãos e a mãe, zeladora, que criou e sustentou sozinha os filhos. ‘‘Ela foi uma vencedora’’, conta, orgulhosa, a Marli sempre otimista, sentenciando: ‘‘Tive uma infância pobre, mas feliz.’’
Tendo a mãe como exemplo, foi atrás de seus sonhos. Aos 14 anos, começou a trabalhar como operária de uma empresa, lá mesmo em Campo Largo. Com o dinheiro, ajudava em casa e pagava o curso supletivo num colégio particular. Pergunto: ‘‘Era muito sacrifício, Marli?’’ A Marli, que nunca faz drama, responde simplesmente que não. Cada situação, para essa mulher que sempre se preocupou em ‘‘viver e fazer o melhor no presente’’, representava oportunidade de novas vivências. ‘‘Nunca fui uma pessoa revoltada, sempre me senti feliz’’, diz Marli, segura dos seus sentimentos e confiante em si mesma. ‘‘Acho que é por isso que nunca dei muita importância às barreiras’’, reflete.
A vontade de cursar o 2º grau levou Marli a procurar novo emprego e novo colégio, em Curitiba. Aos 16 anos, virou auxiliar de dentista e, nessa fase, também aprendeu muito. Trabalhava de dia, estudava à noite, mas continuou morando em Campo Largo. ‘‘Sempre gosto do que faço, não importa onde estou. E estudar, para mim, sempre foi um prazer. Por isso essa fase não foi tão difícil assim, apesar de depender de ônibus e chegar tarde em casa todos os dias’’, pondera Marli.
Ao concluir o 2º grau, ela voltou a trabalhar em Campo Largo. Virou vendedora e ficou no ramo durante 12 anos. O resto da história da profissional, que um dia sonhou ser enfermeira ou aeromoça, agora a gente já sabe.
Essa mulher, para quem as dificuldades nunca foram empecilhos para as conquistas profissionais e pessoais, se autodefine como uma pessoa realizada, que continua buscando aperfeiçoamento em tudo o que faz.
Essa Marli, nossa personagem, nosso símbolo de vitória, nosso exemplo de mulher, dá um conselho a mulheres e homens que têm histórias parecidas com a sua: ‘‘Tudo na vida depende de esforço, de disposição para enfrentar toda e qualquer situação. É isso que vai abrindo os espaços que não existem para nós.’’
Ao reverenciar a mulher, na figura de Marli, penso que se há países como o Canadá, a Suécia e a Holanda, onde as mulheres não precisam de uma data especial para chamar a atenção sobre seus direitos e seus sonhos, não precisamos imitá-los. Afinal, quem sabe, essa possa se tornar uma data de comemoração à reconquista da dignidade humana e ao otimismo de muitas brasileiras e brasileiros. Como a Marli.
- FANI LERNER é primeira-dama do Paraná e secretária de Estado da Criança e Assuntos da Família

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