Em agosto de 1945, o Japão era um país vencido. Ficou militarmente destruído depois da contra-ofensiva norte americana, e após os bombardeios atômicos em Hiroshima e Nakasaki, o imperador aceitou a rendição incondicional.
Cerca de vinte e cinco anos mais tarde, tempo de uma geração, portanto, a renda per capita dos japoneses já era de US$ 1.100. Mais uma geração e, atualmente, o saldo médio do intercâmbio econômico do Japão com o mundo está em US$ 12 bilhões, e conta com uma poupança nacional, dita ociosa, de US$ 11 trilhões. Segundo Joelmir Betting, ‘‘nenhum outro país logrou metade disso até hoje’’ (Folha, 19 de junho).
Obviamente estamos diante de uma nação milenar, com mentalidade, tradições, valores, costumes, igualmente milenares. Não dá para fazer comparações entre esse arquipélago asiático com o nosso Brasil continental, de apenas meio-milênio. Apesar de todas as suas contradições (todos os países têm suas contradições), prevalece no Japão o perfil de dedicação ao trabalho e disciplina pessoal.
Durante um rumoroso escândalo econômico japonês, no início dos anos 70, as autoridades japonesas houveram por bem indiciar o ministro da Economia. E lá foi um delegado à casa do ministro, intimá-lo. Chegou no endereço, indicado no mandado, às 7 horas da manhã. Deparou com uma casa muito modesta, e julgou que ali fosse a entrada da mansão do suposto corrupto. Não era entrada coisa nenhuma, era a própria casa do ministro. O ministro não estava, já tinha saído porque ia para o trabalho de trem, e precisava chegar à estação às 6h30. (O tal inquérito terminou sendo arquivado).
Claro que, depois disso, houve outros escândalos econômicos, inclusive ensejando a destituição dos ministros responsáveis pela economia. E hoje, eis aí os EUA comprando bilhões de ienes para recompor a queda da Bolsa em Tóquio. Mas o exemplo não serve só para dizer que o Primeiro Mundo também se ressente dos efeitos da globalização, serve para mostrar como podem as instituições permanentes, estruturais, assegurar o reerguimento de um país destroçado.
É exatamente nesse ponto que reside o xis da questão eleitoral brasileira. Em outubro, nós vamos ter de escolher ou o socorro conjuntural, ou o prosseguimento na construção estrutural. Porque as crises que nos afligem têm, evidentemente, remédios de alívio imediato. Basta apelar para a política populista, oportunista, de, entre uma ‘‘canetada’’ e outra, aumentar o salário mínimo, baixar os juros, garantir os privilégios corporativos as empresas (mantidas) estatais (ou estatizadas), proteger aposentadorias vultosas, doar comida e terra a granel. Por certo que os aflitos da população adorariam e ficariam muitos felizes. Agora, por quanto tempo? Quanto tempo o País aguentaria uma coisa dessas? De onde viriam os empregos? De onde viria a reserva previdenciária? Como sobreviveria o sistema bancário?
Esse é a diferença entre uma proposta de governo voltada para o imediatismo conjuntural e um proposta voltada para a permanência estrutural. Pode aparecer cruel em relação aos segmentos que não estiverem sendo assistidos num dado momento, mas as mudanças estruturais são as únicas capazes de permitir a estabilidade de um governo auto-sustentável.
Sim, não de deve tentar ensinar a nadar (conhecimento permanente, estrutural) a quem está se afogando. Deve-se, primeiro, tirá-lo da água para colocá-lo numa canoa furada (salvamento transitório, conjuntural), só vai prorrogar por mais uns minutos o afogamento iminente. A idéia estrutural é retirar da água sujeito e trazê-lo, num bom barco, para um porto seguro.
O problema é que o barco e o porto não podem ser construídos de qualquer jeito, nem de uma hora para outra. Ainda mais quando o regime é o democrático (o melhor, mas é demorado).
Nas próximas eleições, os brasileiros, meio-milenares, dirão se preferem o lento processo da maturidade, estável, consolidada, ou a fugacidade de uma euforia ‘‘para todos’’.
Felizmente, não é necessário ficar doente para inventar a cura da doença. Por isso, o Brasil talvez não precise apelar para recuos, atrasos, conflitos, e todos os outros obstáculos sociais causados pelo populismo, que fizeram os povos milenares sofrer, e, do sofrimento, amadurecer. Se há algum sofrimento embutido em todas as escolhas humanas, cabe à razão saber escolher aquele que causa menos mal.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná

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