A solidariedade costuma ser uma das primeiras respostas da sociedade diante de uma tragédia. Foi isso o que aconteceu após a passagem do tornado que devastou o município paranaense de Rio Bonito do Iguaçu, em novembro do ano passado. Diante da destruição e das necessidades urgentes de centenas de famílias, pessoas, empresas, entidades e órgãos públicos se mobilizaram para arrecadar e encaminhar alimentos, móveis, roupas e outros donativos às vítimas. Por isso mesmo, a suspeita de que parte desses bens possa ter sido desviada ou destinada de forma irregular é especialmente grave.

A passagem do fenômeno destruiu 90 por cento da cidade e deixou ruas cobertas por escombros, imóveis destruídos e bairros inteiros sem energia elétrica. Ao tocar o solo, no dia 7 de novembro de 2025, a velocidade dos ventos atingiu 250 km/h. Seis pessoas morreram e centenas ficaram feridas. O tornado foi classificado pelo Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná) para F4, com ventos compatíveis com essa categoria.

Uma investigação está sendo conduzida pelo Ministério Público do Paraná, com apoio da Polícia Civil. A apuração ainda não permite conclusões antecipadas. A apreensão de documentos e equipamentos em prédios da Prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu deverá ajudar a esclarecer se houve, de fato, irregularidades na gestão, no armazenamento ou na distribuição dos materiais recebidos. Aos investigados, evidentemente, devem ser assegurados o direito de defesa e o devido processo legal.

Mas o episódio acende um alerta e leva a discussão para a necessidade de mecanismos rigorosos de controle sobre donativos públicos e privados destinados a situações de emergência. Isso porque quem doa em momentos de calamidade deposita confiança em quem recebe e administra esses recursos. E essa confiança precisa ser correspondida por registros precisos, inventários atualizados, critérios claros de distribuição e total transparência sobre o destino de cada bem. E quando falamos em ajuda humanitária, não pode haver espaço para informalidade administrativa.

O Ministério Público do Paraná investiga a possível apropriação ou desvio de donativos arrecadados para atender as famílias atingidas pelo tornado. A suspeita é de possível peculato e a prefeitura afirma que colabora com as autoridades, garantindo acesso aos locais, documentos e informações solicitados. A administração municipal afirmou que respeita a atuação independente das instituições de investigação e controle, mas disse ter recebido a medida “com surpresa”, considerando que, segundo o município, sempre foram prestadas as informações solicitadas pelas autoridades.

Que os fatos sejam esclarecidos e, se houver responsáveis por desvios, que respondam por seus atos. Se não houver, que isso também fique devidamente demonstrado. Em qualquer dos casos, que prevaleça a confiança da sociedade na gestão dos recursos destinados a quem mais precisa.

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