A comédia da sucessão de FHC
Fernando José Dias da Silva
Nenhum por todos, nem todos por um. Esse é o lema dos três (que são quatro) mosqueteiros do rei, diga-se, Fernando Henrique. Os que pretendem com o aval de sua majestade sucedê-lo na tão espinhosa tarefa de conduzir os destinos desse povo tão pouco dado a reações coerentes. Tanto assim que só se pensa nele, só se fazem coisas com esse objetivo mas o prestígio do governo cai nas pesquisas de opinião. Pessoas menos condescendentes do que o sereníssimo pensariam que eles são mal-agradecidos.
Mas os três mosqueteiros desse folhetim são José Serra, Paulo Renato e Mário Covas. O D’Artagnan é Pedro Malan. Uma história inversa daquela de Alexandre Dumas. Mais moderna, mais de acordo com a época atual, onde viés de alta e viés de baixa querem dizer outra coisa do que uma mero acabamento no decote ou na barra do vestido das damas que circulavam pela corte, por Versailles.
Tempos sombrios quando que não se sabe quem sente mais medo – os que estão fora ou os que estão dentro das grades que cercam as casas, as praças, as universidades. Quando as armaduras foram substituídas pela blindagem dos automóveis. Quando Silvio Santos, também um personagem importante da crônica desses tempos, declara que para ganhar dinheiro faz de tudo. Se for preciso mostra a bunda das suas funcionárias na sua televisão. O Marquês de Sade – que não era nascido na época dos três mosqueteiros antigos – ficaria ruborizado.
Acontece que na nossa história, com todas essas novidades, o nosso herói está em viés de baixa nas pesquisas e passeia pelo Palácio bufando e dando tratos à bola para resolver o problema da sua sucessão porque os inimigos já estão se organizando colocando em forma suas cavalarias para o ataque final. Cada dia mais estão consolidando o terreno adquirido. Como em toda história, os dois principais inimigos já foram aliados. Lula há mais tempo, quando havia mobilização em São Bernardo, um terreno inóspito de uma região inóspita chamada ABC. Ciro Gomes mais recentemente, pertenceu até ao mesmo grupo que chegou ao poder.
O problema de Fernando Henrique é muito mais grave do que escolher um general para combater os sacripantas. Sua dificuldade é muito maior porque se ele escolhe um candidato para as presidenciais de 2002, desde já, o pobre coitado pode ser abatido a tiros sem mesmo ter levantado vôo. E mais grave ainda. Escolhido o delfim, seu governo pode se esvaziar muito antes do final apoteótico que ele imagina. E as tropas inimigas estão acampadas ao redor da cidadela com reforços chegando comandados por Itamar Franco e Roseana Sarney.
Os mosqueteiros sempre podem ser acionados. Mas eles não querem promessas nem de glória nem de apogeu. Só querem servir. Serra só quer ser o pai da Saúde. Paulo Renato só quer ser o pai da Educação. E Mário Covas pretende administrar bem São Paulo (existem dúvidas sobre isso) e depois se aposentar para poder brincar com os netos.
Se eles não querem nada, não se sabe por que brigam tanto ultimamente. Principalmente Serra e Covas que, cada um por seu flanco, também tiram as suas casquinhas dos movimentos de Fernando Henrique. Serra deixou indignados os governadores – junto com eles Covas – por causa da idéia da vinculação de verba orçamentaria para a Saúde que teria de ser cumprida por todos, Estados, municípios e União. Em seguida, acertou Fernando Henrique se dizendo contrário à reeleição. Enquanto isso, Covas dá indicações de que Serra é um apóstata porque renega o que acreditou e sugere que Fernando Henrique não cumpre o que prometeu.
Diante de tudo isso se chamam decoradores para renovar o mobiliário social do governo. Por enquanto muita gente acha que não há o que fazer. O negócio e esperar e torcer para que os adversários comecem a trocar bofetadas como o pessoal do governo.
O interessante é que essa história não é um drama, também não é um épico. É uma comédia farsesca sem muito fôlego. ‘‘I Know it’s only rock and roll, but I liked’’, cantavam os Rolling Stones, os bardos dessa época.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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