A ciência não explica a felicidade
Certa vez ouvi uma pessoa afirmar que não há como negar que a causa de nossa felicidade se reduz por fim, e em última análise, aos seguintes hormônios: serotonina, dopamina e noradrenalina correndo nas veias. Isto pode até parecer verdadeiro, mas, além de reducionista, é um clássico erro de categoria. É uma confusão entre o mecanismo e o agente. Essas substâncias são agentes que estimulam neurotransmissores. Não agem por conta própria.
Seria como afirmar que a razão pela qual o marido matou a esposa foi o excesso de adrenalina e a escassez de serotonina, e não, na verdade, o fato de ela ter sido muito infiel e ele não poder suportar a agonia interior e reagir ao problema do modo mais abominável.
Responsabilizar apenas certas substâncias químicas parece muito promissor e hightech. Chega ao ponto de conferir ares de sabedoria recém-saída dos laboratórios da Caltech.
Não são substâncias que causam o bem-estar, mas são elas que acionam a sua manifestação estética. Se você me pergunta por que lhe esmurrei, eu poderia culpar os músculos do meu braço por se tencionarem e acertarem a sua face. Mas outra resposta, que não exclui a primeira, poderia ser dada: eu o estava impedindo de violentar minha esposa.
Uma situação chata, como um divórcio, seria solucionada pela simples química corporal? Injeta-se dopamina nos cônjuges e é o fim da chatice? Parece que não.
Esse reducionismo tem sido aceito mesmo por muitos poetas, artistas e amantes de arte. Esse povo, que muito aprecio, seria capaz de dizer que todas as emoções, toda a sua música, poetização e criatividade são, em última análise, apenas um subproduto de encontros de partículas aleatórias em seu cérebro? Por favor, não.
O geneticista J.B.S. Haldane coloca algo muito irônico: "Se meus processos mentais são totalmente determinados pelo movimento de átomos em meu cérebro, não tenho razão alguma para supor que minhas crenças sejam verdadeiras. [...] E, portanto, eu não tenho razão alguma para supor que meu cérebro seja composto por átomos." (When I am Dead, em Possible Worlds and Other Essays. Londres: Chatto & Windus, 1927, p. 209).
Essas situações hormonais de fato mudam o quadro completamente ou simplesmente me impedem de vê-lo com mais exatidão? O uso da aerodinâmica não anula a gravidade que força o avião para baixo. Maquiar a tristeza não impede a sua causa, apenas ofusca a sua percepção.
Claro que não condeno o uso de certas medicações para auxiliar em processos depressivos, psicóticos e de casos particulares. Sugiro uma revisão de algumas de nossas visões. É uma espécie de calibragem de instrumentos.
Portanto, sinto-me confortável em dizer que a união do materialismo e cientificismo muito difundido por aí nega a alma humana e acaba reduzindo o ser humano à imagem de um relógio desalmado que marca horas sem saber a sua exatidão. Apenas isso.
Não há o que lhe impeça de beber da caneca da ciência. Pelo contrário, digo isto: se você é como eu que gosta de bons jantares, fique sabendo que além da limitada caneca da ciência que, por vezes com exagero, bebemos há copos de suco, taças de vinho, xícaras de chá, louças com muitas possibilidades de pratos, talheres diversos, várias disposições de cadeiras e muita gente sábia e acessível ao redor para aprendermos e nos relacionarmos.
Há também uma bela casa gigantesca construída por um grande designer muito interessado que você não só descubra meticulosamente, e com liberdade, a imensa variedade de mobílias, mas principalmente que você o conheça por meio dAquele que tomou da caneca que ninguém mais poderia ter tomado.
É daqui em diante que podemos ser, como já foi dito, surpreendidos pela alegria.
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