''A ciencia descobriu o livro da vida''
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de julho de 2000
Maigue Gueths De Curitiba 
Folha Na prática, o que significa este mapeamento do código genético do homem?
Salmo Raskin Significa que foi possível decifrar todas as informações daquilo que é determinado pela genética da pessoa. O que a gente tem agora é um livro da vida, com todas aquelas letrinhas, e ali está determinado tudo o que é geneticamente definido numa pessoa. Mas ainda vai ser preciso muitos anos de estudo para compreendermos o que significa este código.
Folha Como assim?
Raskin Por exemplo, nós sabemos que para ter esquizofrenia a pessoa tem que ter uma pré-disposição genética, mas não temos ainda a mínima idéia onde, no material genético, está situada esta pré-disposição para a esquizofrenia.
Folha E já se sabe quais são todas as doenças genéticas?
Raskin Não. Sabe-se que existem pelo menos três mil doenças puramente genéticas, mas há uma série de outras bem mais frequentes que têm componente genético, mas têm componente ambiental também. Aí entra o câncer, diabetes, hipertensão arterial, esquizofrenia, depressão. Quer dizer, você tem que ter o código genético com a pré-disposição, mas também tem que ter alguma coisa no meio ambiente para que você desenvolva a doença.
Folha Quer dizer, nós temos um livrinho, como uma bula, que diz do que a gente é feito e quais as nossas pré-disposições. E já é possível usar esta bula para prevenir as doenças?
Raskin Ainda não, porque foi descrito só 97% do código genético. E só 5% do que foi descrito neste livro são genes. Isto é incrível, mas 95% do que foi revelado não serve para nada. Só que não sabemos quais os 95% que não servem e quais os 5% que são genes. Por isso, o próximo passo, que vai demorar pelo menos uns 6 meses, é descobrir, entre todas as letrinhas que foram colocadas lá, quais são os 5% que são genes realmente.
Folha Qual o segundo passo?
Raskin Descobrir qual a proteína que é produzida por cada gene. Porque é o excesso ou a falta destas proteínas que causam as doenças. Então, é preciso saber o que esta proteína faz em quem não tem esta doença genética e o que ela deixa de fazer em quem tem a doença. Isto vai demorar mais uns 20, 30 anos.
Folha Por que a pesquisa da proteína será tão demorada?
Raskin É mais difícil porque cada gem produz em média 10 proteínas. Pelo que foi revelado, o código genético tem mais ou menos 38 mil genes. Significa que deve ter mais ou menos 380 mil proteínas e cada uma com uma função diferente. Teremos que entender cada uma destas proteínas, como funcionam, que doenças causam quando não estão presentes. Isso vai demorar o século inteiro.
Folha Descobrindo as proteínas, fica fácil chegar às curas ou à prevenção das doenças?
Raskin Sim, mas é um processo demorado. No caso da fibrose cística, que é a doença que eu estudo, foi descoberto em 1989 que ela está lá no cromossoma sete. Já sabe-se tudo sobre a proteína que ele produz, mas mesmo tendo sido descoberta há 11 anos até hoje a doença ainda não tem cura.
Folha Quer dizer que as pessoas só vão sentir os efeitos destas descobertas daqui uns 30 anos ou mais?
Raskin É isto mesmo. Mas algumas coisas já são feitas num prazo mais curto. Os testes diagnósticos, os exames laboratoriais para saber se uma pessoa herdou uma sequência alterada ou não já é feito em nosso laboratório em Curitiba há sete anos. Hoje pesquisamos umas 300 doenças, mas com a divulgação em breve vamos fazer testes para 2 a 3 mil doenças genéticas.
Folha O senhor pode ser mais específico?
Raskin No caso do câncer de mama, por exemplo, se alguém tem histórico na família e o exame de sangue detectar, ela pode se preparar, com mamografias e apalpações mais frequentes, de modo a detectar precocemente o câncer de mama. Este é o trabalho de aconselhamento genético que eu faço. É uma consulta, onde pergunto se a pessoa tem doenças na família, quando começou a doer, como é que foi. É o trabalho do médico geneticista. Não é o que acontece hoje, quando a pessoa só descobre quando a coisa já está avançada.
Folha O que uma pessoa deve fazer para saber se tem pré-disposição genética a alguma doença?
Raskin Não se faz os testes para as 300 doenças genéticas, o que seria economicamente inviável. Mas se você vem aqui e diz que tem um irmão com hemofilia e quer ter filhos, por exemplo, como médico geneticista vou fazer um aconselhamento genético e calcular a chance de você ter um filho com hemofilia. Vou fazer um exame de sangue e ver se você herdou o mesmo erro genético que o teu irmão.
Folha Estes testes são cobertos pelo sistema público de sa© úde ou planos de saúde. Qual o custo de um teste para hemofilia, por exemplo?
Raskin De R$ 400 a 500. Eles não são feitos pela saúde pública, e só agora, com a nova lei dos planos de saúde os convênios passaram a cobrir.
Folha Após diagnosticar, quais as formas mais plausíveis para tratar?
Raskin Acho que será mais através da proteína do que do gene. Acho complicado colocar uma cópia normal do gene em lugar de uma sequência incorreta, porque é ele quem produz a proteína. Acho mais fácil colocar direto a proteína dentro da célula e pronto.
Folha O grande avanço com o Projeto Genoma, então, vai se dar no tratamento?
Raskin Para mim a grande revolução será o diagnóstico precoce. Hoje não é preciso inventar o tratamento para câncer de mama, ele já existe: ou tira parte do seio, faz quimioterapia, radioterapia. Mas se todos os cânceres de mama fossem detectados no primeiro momento, a doença não matava ninguém. O fato de se fazer o teste vai mudar os hábitos de vida. Por exemplo, se uma pessoa tiver uma doença genética que faz com que nasça com o colesterol muito elevado (hipercolesterolemia familiar), ou ela leva uma vida normal e morre com 20 anos de idade ou não põe colesterol na boca a vida toda e vai morrer de outra coisa. Você vai optar. Hoje o que acontece é que só quando dá um infarte num jovem ele vai descobrir que está com o colesterol lá em cima. O caminho será a medicina preventiva. O Genoma vai permitir pela primeira vez que a medicina não seja terapêutica, mas sim preventiva.
Folha Para a indústria farmacêutica, abre-se aí um super-filão, principalmente com remédios preventivos.
Raskin Com certeza. Vão haver medicamentos específicos para cada pessoa. O tratamento da hepatite C, por exemplo, é feito com o interferon, um medicamento caro, que tem efeitos colaterais e só funciona para 50% das pessoas. Com o Genoma, vamos fazer um teste de sangue na pessoa, não no DNA, mas no vírus da hepatite C e ver, conforme a sequência do DNA do vírus, se ela é sensível ao interferon. Com isso, vamos fazer remédios específicos para cada pessoa, ou seja, terá interferon para tipo 1, 2, 3 de hepatite C.
A indústria farmacêutica irá toda para este lado.
Folha É um negócio que vai envolver grandes grupos, interesses e grandes quantias...
Raskin É coisa de bilhões de dólares que a indústria vai investir. Imagine quanto as pessoas não vão pagar se alguém inventar medicamento para evitar obesidade, hipertensão, enfarte, asma. Quem descobrir medicamentos para evitar estas doenças vai ficar biolionário, sem falar no câncer. Se tiver um remédio que custa R$ 10 mil mas garante que quem tomar não terá câncer de próstata, só não vai tomar quem não tiver dinheiro. Além disso, a Celera, cujo dono é a empresa Perkin-Elmer que produz reagentes e equipamentos para fazer exames de DNA, vai vender o acesso ao banco de dados do código genético para as empresas farmacêuticas interessadas por U$S 5 milhões por ano.
Folha E como é que o Brasil está dentro destas pesquisas e da competição?
Raskin Só existe pesquisa em São Paulo. Ao todo, só 10 pesquisadores participaram do Projeto Genoma, e eu só fui chamado porque estava nos Estados Unidos e os pesquisadores leram um artigo meu. Não se investe em pesquisa no Brasil. Só São Paulo que tem uma Fundação de Apoio à Pesquisa, a Fapesp, que dá uma grana violenta aos pesquisadores, tem laboratórios iguais aos dos Estados Unidos. Não sai nada do Projeto Genoma que não seja de São Paulo. Lá a pesquisa é avançada, eles já fizeram o sequenciamento da Chilela que é a praga do amarelinho que ataca a laranja. Agora estão fazendo com o câncer. Nos outros estados do Brasil é zero. Nem o Paraná, que se diz um estado tão desenvolvido, tem uma fundação de pesquisa, ficando atrás de outros como Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, que têm Fundação de Apoio. Agora estão abrindo aqui a tal da Fundação Araucária que está começando, engatinhando. Já foi aprovada, mas ainda não recebeu dinheiro.
Folha O que é mais nocivo à saúde, as doenças puramente genéticas ou hereditárias ou as causadas pelo meio ambiente?
Raskin Eu pessoalmente acho que é o meio ambiente. Sou contra o que chamam de determinismo genético. Dizer que está lá no seu DNA e, por isso, você é agressivo, alcoólatra ou homossexual. Isto é um absurdo, a pessoa é o que ela quer ser.
Folha Até que ponto é o DNA que determina?
Raskin Tem certas doenças que ele determina, como a fibrose cística, que não tem como evitar, pelo menos por enquanto. Mas doenças mais comuns, como a obesidade, esquizofrenia, infarto, hipertensão, depressão, não são determinadas geneticamente, ou pelo menos acho que não. O meio ambiente é mais importante que o determinismo.
Folha E o que faz com que alguma coisa saia errada no código genético de uma pessoa?
Raskin São erros na hora de dividir a célula. Quando tem a fecundação do espermatozóide com o óvulo, forma uma primeira célula, e isso vai começar a se dividir: 2, 4, 6. Para dividir, ela tem que dobrar o material genético dela e se dividir no meio. Então imagine dobrar 3 bilhões de letrinhas. A célula tem uma maquinaria de conserto. Os erros acontecem bastante, mas a natureza sabe disso e tem uma maquinaria que vai consertando atrás os erros. Mas às vezes ela não consegue consertar. Isto é no caso de um primeiro erro. Pode acontecer, também, de vir de uma geração anterior, o que é uma doença hereditária.
Folha Gêmeos univitelínicos têm código genético idêntico?
Raskin Têm. Os bivitelínicos têm 50% do código genético igual. Os univitelínicos têm 100% igual. Isto significa que se uma doença puramente genética acontece em um gene de um univitelínico, o outro também terá. É aí que se pode descobrir quando uma doença é puramente genética ou não, porque só estas vão incidir sempre sobre os dois. Uma gripe, por exemplo, depende só do meio ambiente. Já a esquizofrenia depende do ambiente e da genética, enquanto a fibrose e a hemofilia são determinadas só genéticamente.
Folha Qual é a sua posição sobre o direito de patenteamento dos genes. Isso não iria restringir as pesquisas?
Raskin Este é um assunto polêmico. A princípio, o pesquisador vai dizer que é um absurdo patentear o código genético de uma pessoa, que não pertence a ninguém. Por outro lado, é injusto que uma empresa invista milhões de dólares para decobrir o gene da esquizofrenia ou da asma e uma concorrente dela venha simplesmente pegar todo aquele dinheiro que ela gastou para investir no gene para trabalhar direto no tratamento. É complicado.
Folha Outra polêmica foi levantada pela igreja, que acha que o Genoma pode incentivar mais abortos.
Raskin Ao contrário, hoje muitos abortam achando que haverá problema. Um casal que tem dois filhos com fibrose cística e a mulher engravida, muitas vezes vai fazer um aborto, quando na fibrose que é recessiva há 75% de chances do bebê nascer normal. Os abortos não vão aumentar, vão dimuinuir, porque as pessoas que têm problemas terão chance de ver que podem ter filhos saudáveis. O Genoma deve ser usado para o lado positivo, basta que a sociedade queira. Se ela quiser, pode usar para lado perverso. A gente é que escolhe o que fazer.


