A China e o cenário internacional - Newton Hirata
Newton Hirata
Uma nação deve manter a soberania através da sua política interna e externa. A primeira estabelece a relação entre o governo e os cidadãos que é, fundamentalmente, baseada na força da lei exercida sobre os governados. Já a segunda, trata da relação de uma nação perante outras. Neste caso, verifica-se não mais a força da lei, mas sim a lei da força, em função do que se conhece como anarquia internacional. Esta terminologia não significa o caos, mas representa a ausência de um poder central que estabeleça as normas de conduta entre todas as nações, assim como governos estabelecem leis a serem cumpridas por seus cidadãos.
Embora efetivamente não exista um poder central de caráter mundial ainda que a ONU e a Organização Mundial do Comércio (OMC) poderiam reivindicar tal poder muitas vezes os EUA mostram-se como os verdadeiros condutores dos destinos da humanidade. Com o final da guerra fria, tendo a queda do Muro de Berlim em 1989 como símbolo maior e o desmantelamento da URSS em 1991, os EUA se tornaram o centro das atenções de todo o mundo.
No início dos anos 90, os americanos viram crescer o desenvolvimento econômico dos Tigres Asiáticos sob a liderança japonesa. Logo, em meados de 1997 veio a crise financeira que se originou na Tailândia e abalou os demais países da região. Por outro lado, na década de 90, verificou-se a retomada do crescimento econômico norte-americano a uma taxa de 4,5% ao ano durante os últimos oito anos. O dólar continua sendo a moeda forte universal, frente ao yen japonês e ao euro europeu.
No contexto atual, os EUA são ao mesmo tempo uma potência militar, ideológica, econômica, financeira, científica e tecnológica. Nem um outro país, sozinho, consegue superá-lo, pois tem o maior PIB do mundo, o maior arsenal nuclear e o maior número de cientistas. O Japão é sem dúvida a segunda maior economia, entretanto, em termos militares está submisso às bases norte-americanas ainda hoje instaladas naquele país. A Rússia é o maior país geograficamente e possui armas nucleares, mas está diante de conflitos localizados com as ex-repúblicas soviéticas e sua economia é bastante vulnerável. A União Européia, por sua vez, está em processo de consolidação e também tem que conviver com a instabilidade da ex-URSS. Finalmente, Índia e Paquistão acabam completando o equilíbrio de poder na Eurásia, pois já anunciaram o desenvolvimento de armas nucleares.
O cenário acima estaria completo caso não fosse a omissão de um ator relevante neste quadro internacional que é a China. Este país abriga aproximadamente 1,2 bilhão de habitantes, é respeitado por seu poderio militar, tanto convencional como nuclear e é relativamente independente, não estando subordinado ao poder e às influências diretas de outros países. Concentrando cerca de 20% da população mundial no terceiro maior país em termos geográficos, esta nação ainda é uma incógnita. Além de não ter sido abalada com crise asiática, vem crescendo a uma taxa de quase 10% nos últimos 15 anos. Os otimistas a percebem como oportunidade em função da abertura do seu gigantesco mercado, já os pessimistas acreditam que ela seja uma grande ameaça tanto em termos militares como econômicos.
Ainda que a participação da China agora em Seattle (EUA), na Rodada do Milênio, que começa hoje, não seja como membro efetivo, o seu ingresso na OMC abre um novo capítulo na história. Se por um lado, a China abre sua economia aos produtos e serviços estrangeiros, por outro lado também passa a ter pleno acesso a outros mercados e tecnologias importantes para o seu desenvolvimento. Ela tentará a todo custo aproveitar-se desta nova realidade para se tornar também uma potência econômica, enquanto que, aos EUA cabe monitorar de perto os passos da China para que ela não coloque em risco a hegemonia americana. Dentre tantas dúvidas, uma das principais questões levantadas é se o autoritarismo comunista chinês irá respeitar as regras da economia de mercado da OMC, sobretudo, considerando que se trata de um país constantemente criticado por violações dos direitos humanos.





