A chegada dos transgênicos
A chegada dos
transgênicos
José Fernandes Jardim Júnior
Há um natural alvoroço por parte da sociedade diante do posicionamento favorável de cientistas de várias academias de ciências do mundo em relação ao consumo de alimentos geneticamente alterados. O assunto, que mereceu manchete nos principais jornais do Planeta, conseguindo também provocar a ira dos ambientalistas e assanhar a opinião pública, ganhou proporções ainda maiores no Brasil, exatamente um dos poucos países que mantêm a proibição de cultivar transgênicos mas, ao mesmo tempo, abre as portas para a importação de cereais geneticamente manipulados destinados à alimentação animal.
Não se pode negar que há por trás de tudo um intrincado emaranhado de interesses, com setores prós e contrários o que é perfeitamente compreensível mas não se pode ignorar também que estamos diante de um conflito de informações e discursos em que parece haver espaço até mesmo para estórias da carochinha.
O que impede a chegada das sementes transgênicas ao Brasil é um posicionamento cada vez mais precário de parte da sociedade, que se baseia apenas na conhecida posição dos importadores e entidades ligadas à alimentação humana da Europa, os quais, em nome dos consumidores daquele continente, dizem não aos transgênicos.
Mas enquanto alguns preferem continuar vociferando contra os alimentos geneticamente alterados, a comunidade científica não consegue provar nada contra eles. Pelo contrário: na visão dos cientistas representantes de academias entre as quais dos Estados Unidos, China, Índia, México, Inglaterra e Brasil, que assinaram recentemente um relatório técnico defendendo a adoção dos transgênicos, esses alimentos podem ser mais nutritivos, estáveis quando armazenados e capazes de promoverem saúde.
O documento reconhece ainda que esses alimentos podem ser uma saída para reduzir a fome no Planeta, lembrando que a falta de comida é hoje responsável por 50% dos 12 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade mortas anualmente em países menos desenvolvidos.
Por sua vez, a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD), sediada em Paris, que reúne 29 países, acaba de divulgar relatório em que afirma que as plantas geneticamente modificadas já aprovadas para o consumo humano são tão seguras quanto as variedades convencionais.
Que fique claro: não estamos aqui defendendo o plantio de transgênicos. Apenas queremos lembrar às autoridades que a proibição do plantio está levando, cada vez mais, a um cultivo clandestino e absolutamente fora de controle em algumas das principais regiões produtoras do País.
Isto porque os agricultores estão preocupados em buscar novas tecnologias que lhes permitam, por exemplo, produzir com menos custos e manter a competitividade perante seus concorrentes norte-americanos e argentinos, onde, principalmente na área de grãos, predominam os cultivos transgênicos.
Podemos dizer que o fim de toda essa celeuma, pelo menos sob o ponto de vista do agricultor, é extremamente simples. Para que ele rechace os transgênicos e continue produzindo alimento convencional, como querem os europeus, não bastam tiroteios verbais ou pronunciamentos emocionados: ele precisa ser motivado para isto. De que forma? Pela vantagem econômica, é claro.
Neste sentido, seria natural, inteligente e oportuno que os compradores europeus sinalizassem com preços diferenciados, por exemplo, para a soja não transgênica o que, já se sabe, eles não pretendem fazer; em contraponto, já disseram que concordariam comprar produtos transgênicos se os preços destes forem mais baratos em relação aos convencionais. Durma-se com um barulho destes!
Se as coisas avançarem pelo lado do preço diferenciado, o mercado se especializará e os produtores, sejam eles de alimentos orgânicos, convencionais ou transgênicos, não terão do que reclamar, muito menos os consumidores, pois tudo se resumirá a uma simples questão de escolha. O momento requer, portanto, objetividade, clareza e ações rápidas. O agricultor não quer e não pode perder tempo nessa corrida tecnológica, muito menos ficar dando ouvidos a estórias da carochinha.
- JOSÉ FERNANDES JARDIM JÚNIOR é vice-presidente da Cooperativa Cocamar, em Maringá





