Me convidaram para assistir à entrega do Oscar. Jornalistas, teoricamente formadores de opinião, se reuniram para torcer pelo filme ‘‘Central do Brasil’’ e pela atriz Fernanda Montenegro na festa da indústria cinematográfica norte-americana. Acho que estou ficando velho e ranzinza. Não entendi o porquê do evento. Se fosse para preencher o tempo, encher a caveira de cerveja, vá lá. Mas a enganação mundial aconteceu na madrugada de uma segunda-feira, dia de batente, e muita gente ficou até o oco da madrugada para quê? Acho que era para torcer mesmo. E isso é triste.
Não vi o filme. Sei que o filho do banqueiro pelo menos tem o mérito de ter dado um pouco de qualidade técnica a nossa (dele) produção cinematográfica. Sei também que Fernanda Montenegro é uma das melhores atrizes do mundo. Mas até aí, nada. A macaquice é livre, mas vamos deixar isso para a Rede Globo e suas transmissões e traduções pavorosas. O buraco deste país de abismo sem fim é muito mais embaixo. Olhar o Brasil de frente não é na sala com ar gelado de um shopping. Olhar para o alma e o corpo doente desta republiqueta comandada por um sociólogo de fachada está longe de ser um programa que se assiste comendo pipoca e tomando coca-cola.
O Brasil está na rua e parece que estamos mesmo totalmente anestesiados para não enxergá-lo. Pílulas como o filme do menino Salles não interessam. Ótimo que nenhuma das estatuetas veio para o Patropi.
O ministro Weffort, aquele petista que tentou reformar os bunkers palacianos de Brasília, a um custo de R$ 50 milhões, iria concorrer com o Greca, nosso homem na corte, e desfraldaria a bandeira verde-amarela para iludir mais o Zé Mané que está desempregado e não sabe que a conta que ele vai pagar pela incompetência da chamada elite dirigente aumentou muito nesses últimos quatro anos.
Fiquei imaginando a cena dos coleguinhas roendo unhas nos momentos do anúncio do melhor filme estrangeiro e da melhor atriz. Nossa pátria foi lesada? Fernanda é melhor que todas as outras. Talvez alguém tenha citado a famosa frase sobre o quintal dos americanos. Ok, meninos e meninas. Se há interesse em conhecer a verdadeira Central do Brasil, vamos tirar as viseiras, vamos olhar o filme que se passa em nossas caras e não estamos enxergando.
Esse filme começou há 500 anos e as comemorações que estão preparando deveriam ser motivo de choro. Ir ao Rio de Janeiro e ficar na estação de trem que leva o nome do filme já seria suficiente para saber do que estou falando. O horror está ali, está espalhado por este país imenso e, paradoxalmente, maravilhoso. O slogan diz que vivemos numa cidade de primeiro mundo, correto? Então imaginem o que está acontecendo na imensidão do resto deste país.
A classe média paga a conta com impostos e a turma do porão não recebe os benefícios. Os de cima se fecham em ilhas protegidas por seguranças e querem arrancar o máximo do que podem nesse fim de festa que parece não ter mais fim.
Ninguém contesta.Quem se diz de oposição só olha para o umbigo e são tão ridículos quanto os que mantêm o poder eterno. Mas há saída. Se não houvesse esperança a vida não teria sentido. Sim, a angústia tende a nos paralisar, mas, para quem ainda tem um pouco de sensibilidade, humanidade, para quem não esqueceu o sentido da nossa presença aqui, é preciso ser forte e lúcido para batalhar pelo bem comum. Ok, isso está parecendo um discurso piegas. E daí? Nesse país idiotizado, está faltando indignação. Se o gado não fosse tão manso, não haveria tanta falcatrua, tanta barbaridade que nos empurram pela goela porque sabem que nem um mínimo de contestação vai haver.
Os jornalistas que se reuniram para torcer por Central do Brasil e Fernanda Montenegro também podem usar o poder que imaginam ter para dar um pouco de luz a quem está nas trevas. Como? Ora, informando de forma simples e correta. Aproveitando as pautas em matérias que, de fato, auxiliam a ninguenzada a saber utilizar os serviços que estão à disposição. Não torcer por um filme para que a própria mídia massacre quem está massacrado, empurrando aquele orgulho babaca de que é bom ser brasileiro, um país que, na realidade, parece eternamente perdedor.

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