Dom Geraldo Majella Agnelo
Em paralelo às grandes celebrações civis que estão programadas em todo o mundo para festejar a chegada do ano 2000, a Igreja sugere algo novo, diferente das superficialidades e exageros que veremos, convidando-nos para comemorar a festa do Grande Jubileu dos 2000 anos de nascimento de Jesus Cristo. Será um momento novo na alma de cada cristão que participar desta festa, não apenas pela mudança psicológica que se forjará dentro de cada um de nós, mas, principalmente, pela consciência de que estaremos celebrando os 2000 anos de uma história de amor entre Deus e os homens, que culminou com a entrada de Jesus na história material humana, encarnando-se, conosco vivendo, morrendo e ressuscitando para a nossa salvação.
Conforme as indicações do próprio Papa, relevo particular caberá à celebração de abertura do Jubileu, em Roma, ‘‘cidade onde a Providência quis colocar a sede do Sucessor de Pedro’’, e na Terra Santa, ‘‘onde o Filho de Deus enquanto homem nasceu, tomando nossa carne de uma virgem, chamada Maria’’, como também nas Igrejas catedrais de todo o mundo, marcada pela solene liturgia eucarística presidida pelo bispo diocesano, com a presença do clero, dos ministros e viva participação de todo o povo cristão.
Em Roma, porém, o Papa irá inaugurar o jubileu na noite de Natal, entre o 24 e o 25 de dezembro de 1999, com a abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro do Vaticano, que antecederá de poucas horas tanto a celebração inaugural em Jerusalém e em Belém como a abertura da porta santa nas outras basílicas patriarcais de Roma.
Em todos os jubileus sempre existiram sinais característicos. Para o Grande Jubileu do Ano 2000, o papa apresentou os seguintes: a Peregrinação, a Abertura da Porta Santa, a Indulgência, a Caridade e a Memória dos Mártires. Estes sinais têm por finalidade atestar a fé e favorecer a devoção do povo de Deus. Abaixo, falaremos sobre cada um deles.
A abertura da Porta Santa evoca a passagem do pecado à graça, que cada cristão é chamado a realizar. Jesus disse: ‘‘Eu sou a porta’’, para indicar que ninguém pode ter acesso ao Pai senão por Ele. Assim, o sinal da porta lembra a responsabilidade de todo fiel quando atravessa o seu limiar. Passar por essa porta significa confessar que Jesus Cristo é o Senhor, revigorando a fé n’Ele para viver a vida nova que Ele próprio deseja nos dar.
Quando à Peregrinação, podemos dizer que ‘‘ela reproduz a condição do homem, que gosta de descrever a sua própria existência como um caminho. Do nascimento até a morte, cada um vive na condição peculiar de Homo viator (caminhante). Aliás, é frequente a Bíblia falar da peregrinação aos lugares sagrados. Também Jesus, com Maria e José, foram em peregrinação ao templo de Jerusalém. A história da Igreja é o diário duma peregrinação sem cessar, constituindo um momento significativo na vida dos fiéis, revestindo expressões culturais diferentes nas várias épocas. Ela lembra o caminho pessoal de quem crê seguindo as pegadas do Redentor.
Certamente a maioria de nós não terá a possibilidade de sair em peregrinação para a Terra Santa ou para Roma; porém, peregrinamos espiritualmente através da vigilância, do jejum, da caridade e da oração, esforçando-nos para chegar, com a ajuda da graça de Deus, ‘‘ao estado de homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo’’.
Quando à Indulgência, devemos nos esquecer dos abusos medievais. Isso nada tem a ver com o que o Santo Padre o papa João Paulo II sugere neste jubileu. A indulgência que se obtém através da Igreja que, com o poder de ligar e desligar concedido a ela por Cristo, intervém em favor do cristão, abrindo-lhe o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos para obter do Pai a remissão das penas temporais devidas a seus pecados. Assim, por meio das indulgências se manifesta a plenitudade da misericórdia do Pai, que vem ao encontro de todos com o seu amor, expresso primariamente no perdão das culpas.
Em suma, é momento de celebrar o perdão, a misericórdia e a alegria de saber que Deus continua peregrinando com seu povo. Aliás, a melhor maneira de celebrar o jubileu é abrindo o coração à graça que Deus nos dá. Graça esta que se mobiliza, que sai da estaticidade e que vai ao encontro do outro. Temos ainda muito a construir neste mundo conturbado em que vivemos. O jubileu nos desperta e mostra que ‘‘já é hora de acordarmos do sono, pois a salvação está mais próxima do que quando abraçamos a salvação’’. Assim, mãos à obra! É tempo de viver a caridade, e ela é um sinal de Deus, pois abre nossos olhos às carências daqueles que estão ainda à margem da história – o irmão, nosso próximo mais próximo e, portanto, o termômetro medidor do amor que sentimos por Deus.
Se criarmos em nós o espírito sugerido pelo Santo Padre, não tenho dúvidas que estaremos preparados para a construção do mundo novo querido por Deus e, principalmente, aptos a dar conta ao Senhor dos talentos que Ele nos confiou. Precisamos, finalmente, desenterrar todos os nossos talentos e colocá-los à disposição da obra de Deus que nos convida hoje a operar.

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