O presidente Bill Clinton encontrou, afinal, uma maneira honesta de desviar de si a atenção do povo norte-americano. A crise financeira, que começou no ano passado nos países da Ásia, chamuscou sociedades desenvolvidas como Suécia e Canadá, derrubou a credibilidade japonesa, arrasou o que restava da Rússia, e coloca em risco a utopia latino-americana, ameaçava desembarcar no centro do Império. Diante dessa perspectiva, Clinton fez um pronunciamento de chefe de Estado, anunciando medidas e demonstrando insuspeitada compreensão do fenômeno econômico.
O governo de Washington se mexeu e, além de propor verbas para socorrer as economias em crise, sugeriu uma rediscussão do modelo econômico mundial, sempre dentro do princípio de que os Estados Unidos não podem ser um oásis de tranquilidade cercado por povos famélicos e governos falidos. Se todo o dinheiro do mundo for para o grande irmão do norte, o Ocidente vai viver em recessão. E os norte-americanos não terão compradores para seus bens e serviços.
Nos últimos cinquenta anos, os norte-americanos moldaram o mundo em que vivemos. Primeiro ganharam a guerra contra o nazismo e redefiniram o mapa da Europa. Depois soltaram duas bombas atômicas no Japão, humilharam o militarismo nipônico e o general MacArthur reconstruiu o país em bases capitalistas - fez, inclusive, uma reforma agrária. Por último, a União Soviética se dissolveu. Saiu da vida e entrou para os livros de história. O comunismo deixou de ser opção prática. Retornou ao estágio universitário de existir.
O mundo de hoje é o mundo criado pelos acordos de Bretton Woods, logo após o final da Segunda Guerra Mundial. Roosevelt, que não chegou a ver sua obra construída, imaginava uma entidade mundial com prestígio e poder para suceder a Liga das Nações. Surgiu a ONU. E o Fundo Monetário Internacional deu sentido financeiro àquela estrutura política. O fim da guerra fria modificou, mais uma vez, o mapa da Europa. E mudou as relações financeiras, uma vez que os antigos comunistas tentaram, ou ainda estão tentando, sua reconversão capitalista.
Tudo isso exige a reformulação do sistema financeiro internacional. Este é o último estágio da pax americana, fenômeno também conhecido por globalização. O Brasil, como seus vizinhos no continente, fez o que pôde para acreditar nesse modelo. Não funcionou. Foi preciso que Washington lançasse o salva-vidas. Antigamente, a cavalaria não socorria índios. Nem latinos. Só os brancos. Dizem que a expressão gringo surgiu no México, quando o exército norte-americano, vestindo uniforme verde, invadiu o país. O grito era óbvio: ‘‘Green, go.’’
As principais autoridades financeiras no Brasil comemoraram o socorro norte-americano. O regimento de cavalaria salvou os índios. E os soldados vestidos de verde estão sendo recebidos em ambiente de tapete vermelho. O Brasil, com Lula ou Fernando Henrique Cardoso, vai se submeter às regras do FMI para continuar dentro do jogo do mercado. No entanto, uma coisa mudou: o presidente Clinton admitiu que se os latinos entrarem em crise, os efeitos vão atingir os Estados Unidos. Eles precisam salvar a nós, para salvar a eles. Faz sentido. Os países periféricos devem trabalhar para que os ricos continuem ricos. É por essa razão que a cavalaria, agora, protege os índios.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília

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