Ao votar a favor da Reforma da Previdência, a jovem deputada Tabata Amaral (PDT/SP) abriu os flancos para uma saraivada de críticas. Mas a deputada decidiu enfrentar o tiroteio e manteve seu voto argumentando: “A reforma que hoje votamos não pertence mais ao governo. Ela sofreu diversas alterações feitas por esse mesmo Congresso. E o sim que eu digo à reforma não é um sim ao governo. E também não é um não a decisões partidárias. Em momentos como esse a gente tem que olhar para o futuro do país.”

Muito além de se caracterizar como um erro ou um acerto, a decisão de Tabata sugere um raciocínio próprio que desafia as diretrizes partidárias que durante anos costuraram e deram sustentação ao fisiologismo no Brasil. O presidente do PDT, Carlos Luppi, havia afirmado que a Comissão de Ética do Partido iria abrir um procedimento contra os deputados que votassem, a favor da reforma, mas como 8 dos 27 parlamentares optaram pelo “sim”, a decisão pretendida sugeria a abertura de uma crise interna maior do que se apenas um ou dois deputados tivessem tomado o mesmo rumo de Tabata. Deste modo, já surgem por aí sinais de que os ânimos já se arrefeceram e, pelo menos por ora, a deputada deverá permanecer no seu partido de origem.

Isso não a livrou de ser um dos principais alvos nas redes sociais após a aprovação da reforma, por vezes roubando a cena do próprio tema em discussões intermináveis entre os que acusam de traição e os que a defendem como uma cabeça independente. Teve de tudo: de forma irônica, sugeriram que ela fosse para o Novo, de João Amoedo, Alexandre Frota a convidou para integrar o PSL e o Movimento Brasil Livre apoiou publicamente a decisão da moça, enquanto a esquerda tratou de engrossar seu linchamento nas redes, colocando o assunto como um dos mais comentados no Twitter, Facebook e outras plataformas.

O fato é que na condição de jovem deputada e estreante nos covis políticos - que não poupam nem mesmo raposas velhas ou 'ovelhas' experientes - Tabata Amaral tem tentado manter uma atitude alternativa de optar pelo que lhe parece sensato. E aqui esta afirmação é apenas objeto de análise e não implica em defesa ou ataque à reforma que acabou de ser votada e que divide opiniões até mesmo entre especialistas no assunto.

O que salta aos olhos é que existam cada vez mais dificuldades para se manter linhas ideológicas e decisões em bloco nos partidos, como observou Rodrigo Prando, professor de Ciência Política da Universidade Mackenzie em entrevista à FOLHA na sexta-feira (12).

Nos embates pró ou contra a reforma, partidos como Avante, PL PP, PRB, PROS, PSC, PSD, PSDB e Solidariedade também passaram por casos de 'desobediência.' Mas o que também salta aos olhos é que a desobediência não é o principal problema da política nacional que sempre foi fonte de indecisões e vícios. O grande problema continua sendo a compra de votos a cada vez que uma decisão de peso tem que ser tomada pelo Congresso e o Senado, obrigando governos, de qualquer facção, a correr para adoçar a boa vontade da classe política com jogos de bastidores, acordos e liberação de recursos para emendas a toque de caixa.

Só para a votação da Reforma da Previdência, o governo Bolsonaro liberou R$ 4,3 bilhões para emendas parlamentares. Este é o assunto central que deveria ganhar dimensão nos debates que ainda se restringem a um conjunto de simpatias ou antipatias mútuas, formando uma espécie de casca cosmética, sem muita importância, sobre o tecido roto da política nacional.

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