Fé e razão, a nova encíclica de João Paulo II, é uma contundente crítica à razão moderna. Desde Copérnico e Galileu, irmanados a Descartes e Newton, acreditou-se que a razão seria capaz de equacionar todas as dificuldades da vida humana e criar o melhor dos mundos.
Em 1682, um astrônomo inglês viu um cometa cortar os céus de Londres. Varou a noite dedicado a seus cálculos. No dia seguinte, comunicou à comunidade científica que o mesmo cometa retornaria em 77 anos. Muitos julgaram que o cientista ficara demente. Como é possível um homem, trancado num escritório e a partir de cálculos matemáticos, prever com exatidão o movimento dos astros? De fato, em 1759 o mesmo cometa atravessou, de novo, os céus de Londres. Mereceu então o nome do astrônomo, que já havia morrido: Halley. Foi a glória da razão.
Quase quatro séculos depois, o saldo não é dos mais positivos. De um lado, avanços fantásticos nas áreas da técnica e da ciência: prolonga-se a vida humana, curam-se enfermidades, pisa-se na Lua. De outro, o fracasso da razão, que sequer consegue erradicar da face da Terra algo tão elementar quanto a fome.
Dispõe-se de um arsenal bélico capaz de destruir o nosso planeta 36 vezes, sem no entanto criar os meios para salvar, ao menos uma vez, 1,5 bilhão de pobres. O papa denuncia o racionalismo que, distante dos valores da fé cristã, transformou a razão num instrumento a serviço do prazer e do poder. As questões fundamentais ficam hoje sem resposta: Por que vivemos? Qual o sentido da história humana? Que futuro nos aguarda?
Na medida em que as filosofias atuais captam as árvores e ignoram a floresta, nossa visão fragmenta-se. Já não percebemos as articulações de fundo dos eventos sociais. Portanto, tendemos a acreditar que a pobreza é tão natural quanto os terremotos, e que a desigualdade social reflete a superioridade que, na selva, assegura a uns animais menos riscos de vida que a outros.
Se atendemos ao clamor de João Paulo II e adequamos o nosso modo de pensar e de agir aos valores evangélicos, então tudo muda de figura. Pois quando muitos exaltam a competitividade, o evangelho enfatiza a solidariedade; e concebe o poder como serviço; a justiça ao pobre como critério de adesão a Cristo; a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano como condição de sociabilidade e humanização.
A carta do papa alerta para indigência das filosofias niilistas, historicistas, e tantas outras que evitam encarar de frente as grandes questões humanas e os desafios que se colocam a todos nós às vésperas do terceiro milênio: como construir uma ética que assegure e plenifique nossa vocação à transcendência?
O neoliberalismo idolatra o mercado e proclama que ‘‘a história acabou’’. Assim, encerra-nos num mundo às escuras, sem esperança e utopia, onde apenas brilham as falsas luzes das lantejoulas do consumismo.
João Paulo II sabe que o coração humano aspira a algo mais que a posse de uns tantos objetos. Temos fome de Deus. E essa estrada não tem volta. Quem não desemboca no absoluto, corre o risco de descambar para o absurdo. Sem sonhos e utopias, o ser humano recorre às drogas ou às pseudofilosofias justificadoras de nossa progressiva desumanização numa sociedade que faz a mercadoria valer mais do que as pessoas.
Ler e meditar a encíclica Fé e Razão é dar ouvidos e abrir o coração às veredas que nos introduzem no terceiro milênio pela porta do jardim do Éden - aquela que se fechou às nossas costas quando julgamos que a nossa liberdade prescinde de Deus e do amor ao próximo.
- Frei Beto é religioso católico

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