Poderá existir algo mais trágico e catastrófico que o genocídio em Gaza, que já ceifou (segundo dados independentes) mais de 75 mil vidas, sendo 53 mil menores? Pode! O cinismo, o silêncio, a apatia e a impotência dos organismos internacionais são deveras mais desoladores e intragáveis.

Nos salões dourados das diplomacias, levanta-se aqui e acolá uma voz mais crítica, mas logo é silenciada pelo respeito a antigas amizades e acordos internacionais. Neste quesito, Israel se sobrepõe totalmente à pobre e insignificante Palestina, que até hoje não conseguiu emplacar o seu lugar ao sol como país independente.

A Europa, totalmente subserviente a Trump (última reunião da Otan deixou isso claro), não arrisca nenhum posicionamento mais contundente. Os EUA, esses não escondem os seus planos para a pós hecatombe humana, com a construção de belos resorts! Israel está livre e solto!

Muitos dizem que tudo começou com um ataque terrorista do Hamas. Ninguém de bom senso negará esse ato como um terrível atentado contra o povo de Israel. Mas é uma mentira deslavada afirmar que “tudo se iniciou” aí! A divisão da terra, em 1948, apontava que 55% seria para os judeus e 45% para os muçulmanos, cuja população era o triplo da de judeus. Além de ter um território maior, os judeus teriam as terras mais férteis.

Os britânicos se encarregaram, após a Primeira Guerra Mundial e a derrota do império Otomano, de fomentar nos judeus a ocupação, em vista de “uma possível divisão mais tarde”. A ONU achou que era chegado o momento, como forma de compensação pelo holocausto e outras atrocidades contra os judeus, lhe dar um país. Os árabes nunca o aceitaram e lhe declararam guerra imediatamente.

Foram vários os conflitos desde aquela época, praticamente todos “vencidos” por Israel. Nestes 77 anos, o povo de Israel cresceu em riqueza e desenvolvimento, sendo até hoje o grande protegido dos EUA. Cresceu também em território com as suas colônias invasivas e agressivas. O povo palestino (cerca de dois milhões) ficou confinado a uma faixa estreita de 41 quilômetros de comprimento por cerca de 11 de largura. Abandonado pelo ocidente e sempre considerado um “enclave incômodo”, conseguiu em alguns momentos acordos de paz com Israel, mas nunca uma convivência pacífica com fronteiras “livres”.

Israel sempre manteve o controle do espaço aéreo e das águas territoriais. Nesse contexto, surgiu o grupo terrorista Hamas, que subsidiado pelo Irã, visa também a supressão do estado judaico.

A atual guerra não é mais uma guerra! É uma caçada a um grupo terrorista que se esconde em túneis e habitações e que, portanto, não luta em “campo aberto”. Uma invasão que não respeita os civis, com os seus hospitais, escolas ou mesquitas. Esse empreendimento tem ainda o objetivo de “trazer os reféns de volta”, vivos ou mortos.

O que era uma “resposta justa”, tornou-se agora num genocídio, revelando intenções escusas do grupo que está no poder com o primeiro ministro Benjamin Netanyahu, que responde a vários processos por corrupção. Há uma clara e indisfarçável intenção de aproveitar o terrível momento para acabar de vez com Gaza, tal como a conhecemos. Tudo isso com a “bênção” do grande “xerife mundial”, Donald Trump!

Segundo a jornalista portuguesa Ana Tulha, em artigo publicado no Jornal de Notícias, dia 29, uma denúncia dos Médicos Sem Fronteiras coincide com um trabalho do jornal israelense “Haaretz”, em que oficiais e soldados das Forças de Defesa de Israel confirmaram, sob anonimato, terem ordens para disparar sobre as multidões de civis que se aproximam dos centros de distribuição militarizados da “fundação”.

Essa instituição internacional garante que “mais de 500 pessoas foram mortas e quase quatro mil feridas quando tentavam obter comida”. O relato do coordenador de emergência da organização é desconcertante: “Se as pessoas chegam cedo e se aproximam dos postos de controle, são alvejadas. Se chegam na hora certa, mas há um excesso de pessoas e pulam os arames, são alvejadas!

Só haverá paz quando ali existirem legalmente dois países e ambos se respeitarem.

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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