A polêmica tomou o noticiário, nos últimos dias. Na berlinda, a carne bovina brasileira. Na última semana, o Comissário de Saúde da União Européia (UE), Markus Kyprianou, ameaçou suspender toda a importação da carne brasileira caso o país não melhore seus padrões de segurança alimentar até o final deste ano. Cansados da afronta oriunda do Velho Continente, os produtores brasileiros, liderados pela Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC), decidiram se unir. Em entrevista à FOLHA, o bovinocultor de corte José Antônio Fontes, membro da ANPBC, rebateu as críticas européias, afirmando tratar-se de ''puro mercantilismo''.

Essa ''guerra'' envolvendo o comércio de carne bovina está mais para uma questão de sanidade ou uma barreira comércial?
Trata-se de uma questão puramente comercial envolvendo o mercado de carne. O Brasil, em sete anos, mais que quadruplicou o volume de exportação de carne: ganhamos em volume e custo de produção. Por isso as reações.

E como o senhor define tais reações?
São naturais. Em qualquer comércio do mundo é assim: de armas, de aviões, do petróleo, do etanol. Isso é mercado: é ouvido aquele que grita mais alto. Eles gritam mais alto porque são mais organizados.

Desorganizados, ficamos indefesos?
Sim. O que buscamos, agora, é organizar o produtor dentro da cadeia produtiva, que é das mais mal-organizadas. A cadeia é organizada da porteira para fora: a indústria interna, o varejista. Havendo essa organização, todos
da cadeia sobrevivem.

Quem tem competência para negociar?
Um exemplo: não podemos deixar o ministro das Relações Exteriores sentado em uma mesa, rodeado de europeus que defendem seus interesses. O produtor brasileiro tem que dar respaldo às autoridades nacionais que tratam do caso. Vamos falar em nome do produtor, do bovinocultor de corte, diante desse comportamento das autoridades do Reino Unido que fazem da alegação da falha no controle sanitário brasileiro o ''bode expiatório'' de toda a questão.

Em relação à questão sanitária, o Brasil está fazendo o dever de casa?
O Brasil está à frente do dever de casa. Por uma questão de sobrevivência. Para quem duvida, lanço a pergunta: diante dos altos índices de abate por hectare de terra, será que alguém imaginaria que o consumidor nacional não quer comer carne com sanidade de Primeiro Mundo? Claro que quer! Isso é respeito. O produtor respeita o consumidor interno. Das 40 milhões de cabeças abatidas ao ano, aproximadamente 80% é consumida no mercado interno. Por consequência, estamos no mercado internacional. Hoje, através das campanhas de vacinação, fazemos uma prevenção extraordinária. Basta olharmos para a quantidade de vacinas comercializadas. Convenhamos: ninguém compra vacina para jogar fora.

As fronteiras continuam escancaradas para entrar qualquer animal? O que está faltando?
A conscientização do produtor - o maior prejudicado com a não-existência de um foco no Paraná, pelo qual estamos pagando, há 720 dias, impedidos de exportar -, fala mais alto. Nossa responsabilidade já começa para com o consumidor interno. Fora isso, não é só notícia de jornal: o governo tem investido nas regiões de fronteira com o Brasil, com medidas concretas.

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