Não era uma sexta-feira 13! Antes fosse, repleta de monstros e fantasmas que há muito aprendemos a domar e a vencer em nosso inconsciente e imaginação. Confesso que, mesmo vivendo um dia a dia repleto de denúncias e notícias de corrupção e malvadezas com dinheiro público, há muito não sofria um impacto tão devastador como no último dia 17.

Ao olhar as prateleiras dos mercados ou pensar nas merendas escolares das nossas crianças, chorei de angústia, ao constatar mais uma vez o que tanto o Papa Francisco tem denunciado! Até onde vão a ganância e o amor ao vil dinheiro! Não há limites éticos nem morais que impeçam estas pessoas de ganhar sempre mais e mais. Enriquecer ilegal e imoralmente com recursos do BNDES! Nunca na história deste país este banco financiou tantas riquezas individuais ou de grupos, que prometeram fazer grande o Brasil, se tornando fortes! Assim nasceram os magnatas do "processamento de proteínas", eliminando concorrências e se tornando os maiores do mundo no setor!

O capitalismo deprimente e desumano que encontra terreno fértil neste lado do planeta mostra a cada dia o quão está nada interessado na saúde e no bem-estar das pessoas. O Brasil assiste cotidianamente a uma avalanche de denúncias que refletem uma estrutura social rompida, esgotada e exaurida. No Ministério Público e na Polícia Federal, jovens idealistas e bem preparados (e bem remunerados) cumprem o papel de nos mostrar que este modelo chegou ao final.

A Lava Jato, passados três anos, revelou o que já sabíamos: a classe política e as empreiteiras viviam um casamento perverso de comunhão de bens à custa do dinheiro público. A Copa e as Olimpíadas foram desesperadamente pleiteadas nos organismos internacionais respectivos, com um único fim: enriquecer construtoras e financiar campanhas eleitorais e hábitos nababescos de políticos safados. O povo, com um feeling que lhe é próprio, já o sabia! As prisões repletas de sujeitos desses esquemas apenas o vieram confirmar.

Chegamos ao final. Precisamos dar começo a um novo início! A famosa lista do Janot mostrou que se salvam poucos. Diz-se que o caixa 2 – agora quase legalizado – sempre existiu! Mas essa normalidade não pode ser declaração de legalidade nem da inocência de quem o usou! O STF não foi criado para ser aquilo em que se transformou! Ele não pode ser um tribunal qualquer de julgamento de centenas de casos de crimes comuns; virou uma piada, ver centenas de caixas com centenas de nomes para serem investigados e quem sabe julgados! O Brasil não acredita nisso. Precisamos ter coragem de dizê-lo! O STF não tem condições de agir deste modo e logo veremos o Congresso usando estas limitações para bolar alternativas em que todos continuem gozando da tal da imunidade. Fala-se já da reforma política com financiamento público de campanha e lista fechada!

Tudo que há anos até poderíamos pleitear, mas agora sabemos a razão clara desta manobra! A classe política brasileira usará todas as armas para se manter longe dos tribunais e das prisões! Celebrar aniversário da Lava Jato é sermos realistas. O Congresso tem mais poder do que normalmente se pensa. E se até agora pareceram acuados pela agilidade da Justiça Federal da República de Curitiba, farão de tudo para que os direitos inerentes ao cargo sejam a garantia de sua salvação. Quando a água entra no porão os ratos vão para o convés!

Precisamos ter esperança e não nos deixarmos abalroar pela infinidade de notícias que denotam o quanto nosso país está podre em suas estruturas, e quanta mentira se vende à nação incauta e principalmente ocupada em ganhar o seu pão no dia a dia. O sistema político faliu! Parceria público-privada não é o que tem sido revelado nas páginas policiais dos jornais! O nosso Judiciário precisa ser revisto e, usando uma expressão de um aposentado juiz do Supremo, precisamos na verdade repensar a Federação! Se tem males que vêm para o bem, que o atual momento político, econômico e social do Brasil gere unidade em torno de ideais e não de pessoas ou ideologias! O século 21 nos ensinou a relativizar as divisões ideológicas!

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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