Walmor Macarini
Na conferência sobre temas transcendentes, minha amiga toma o microfone e faz a sua palestra. Não é uma palestrante profissional, apenas uma mulher, casada, mãe de filhos, média-empresária e destas que - justamente por estar sempre ocupada - encontra tempo para falar de coisas boas, e aí os sentimentos transbordam e ela chora de emoção e enquanto chora consegue rir, e assim chora e ri, e a platéia também se envolve e passa a chorar e a rir com ela.
Vou-lhes contar uma história - ela começa. E pelas projeções que vai mostrando no painel, as pessoas já identificam a história. Uma história verdadeira. De um casal que se tornaria célebre em todo o mundo pelos bons ensinamentos e tanta sabedoria legados à humanidade. A história é rica em muitos sentidos, mas ela ressalta como relevante o fato de a mulher, nos momentos difíceis do marido, tomá-lo no colo e acarinhá-lo, cantando-lhe cantigas de ninar. Até que ele adormecesse, e, assim, com o bálsamo do carinho e do sono, diluirem-se as dificuldades.
De toda a maravilhosa história do casal, minha amiga tocou-se justamente no mais relevante: o gesto de carinho da mulher ao tomar no colo a cabeça do marido, nada dizer-lhe, apenas acarinhá-lo e cantar-lhe cantigas de ninar...
Minha amiga nos fez pensar sobre quantas vezes tomamos no colo a pessoa que amamos. Ou, quantas vezes lhe demos um abraço...
Por que a mulher acarinha tão pouco o seu homem?! Por que o homem acarinha tão pouco a sua mulher?! Por que acarinhamos tão pouco nossos filhos, nossos pais, nossos avós, nossos amigos?
Por que? Porque temos medo de nos doar.
No mais das vezes somos pródigos em atitudes práticas, destas que fazemos mais por obrigação e formalismo - porque isto faz parte dos bons tratos da educação e da regra social - mas o toque, o carinho, a palavra... Ah, isto economizamos. Temos vergonha de ser carinhosos. E como faz falta o carinho! E por fazer falta, como faz bem!
Um gesto, às vezes, vale por mil palavras. Sim, palavras são também muito boas, quando na medida e no momento certo. Mas nada se compara ao gesto. O gesto que doa. O gesto da presença. O gesto mudo no momento preciso.
O gesto pode ser um ‘‘bom-dia’’, um ‘‘boa-tarde’’, um ‘‘boa-noite’’. Por exemplo, quando entramos no elevador - um dos mais íntimos pontos de encontro - quando encontramos um conhecido na rua, ou com alguém que nem conhecemos mas estamos num lugar onde só estamos nós e alguns poucos...
Há mais pessoas boas por aí do que pessoas ruins. E ruins, mesmo, não existe ninguém, só alguém a quem falta às vezes um gesto, uma palavrinha, um reconhecimento. As pessoas gostam de sentir-se reconhecidas. Um ‘‘boa-dia’’ sincero é um gesto de reconhecimento; e um bom desejo, pois estamos desejando a quem cumprimentamos que tenha um boa dia!
O gesto pode ser um sorriso. Pode ser um carinho. Uma cantiga de ninar...
As coisas mais importantes são sempre coisas simples.
Minha amiga, em sua palestra, identificou o ponto. E o transmitiu aos que estavam presentes. E se choramos e rimos com ela - ela ria de seu próprio choro - é porque identificamos em nós esse atributo, essa vontade de também receber carinho, de também dar carinho. Porque nunca nos comovemos diante daquilo que não temos dentro de nós próprios. Então, se nos comovemos é porque encerramos em nós os atributos que nos levam à comoção. E se carregamos esses atributos, por que relutamos tanto em manifestá-los em nosso dia-a-dia, quando surge a oportunidade?!
No toque está a magia. Está a unção.
Há pessoa que ambicionam todas as fortunas do mundo mas são incapazes de um toque, de um abraço.
Um carinho pode evitar uma briga. Um abraço pode evitar um ato extremo. Uma palavra pode evitar uma guerra.
Uma cantiga de ninar desperta.
Na criança que somos nos encontramos. Ali reside nossa pureza. Por isso que somos tão sensíveis a um colinho. E gostamos de cantigas de ninar...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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