A candidatura Ciro Gomes
Cena 1: Renata, 20 anos, terceiranista de Direito, petista e minha filha, assistiu a uma recente entrevista do pré-candidato à presidência da República pelo PPS, Ciro Gomes. Agora está em dúvida entre votar em Lula ou no neotrabalhista da caatinga. Cena 2: Machado, 53 anos, calejado pela experiência de vida, apartidário e meu amigo, ficou impressionado com a retórica do candidato nesta mesma entrevista e, na manhã seguinte, me perguntou se tudo aquilo - as informações - era de fato verdadeiro. Cena 3: numa mesa de restaurante no centro do Rio, éramos quatro jornalistas e um sociólogo - diretor de um importante instituto de pesquisa do País. O tema da conversa era a sucessão presidencial. Alguém pergunta se Ciro Gomes tem espaço para crescer. Teria, afirma o sociólogo sem titubear, não fosse intempestivo e agressivo.
Ex-ministro da Fazenda ao apagar das luzes do governo Itamar Franco, Ciro Gomes é um crítico ferrenho da política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso. De todos os candidatos oposicionistas, sem dúvida é o melhor preparado intelectualmente e com um currículo político-administrativo que o credencia a postular o cargo de presidente da República. No entanto, o ex-governador do Ceará não consegue subir nas pesquisas e patina na quarta colocação, oscilando alguns pontos para cima ou para baixo dentro do que os pesquisadores chamam de intervalo de confiança. Na última eleição, sem horário na televisão e apoiado por partidos mais nanicos que o PPS de então, obteve mais de 10 milhões de votos, sem dúvida uma proeza em se tratando de uma candidatura sem grande respaldo partidário ou financeiro. Agora, melhor estruturado, corre o risco de repetir uma votação semelhante à obtida em 1998.
Mas afinal, por que seu nome não cresce nas pesquisas? A grande rejeição está muito mais no estilo pessoal de fazer política que propriamente pela falta de qualidades que o credenciem a ser presidente da República. Dono de uma oratória mordaz, contundente em suas afirmações, Ciro Gomes de fato é intempestivo. Segundo a imprensa, num encontro recente com empresários paulistanos, ao ser abordado por um advogado de origem italiana que o questionava se determinado assunto era compatível com a cultura brasileira, respondeu de maneira agressiva fazendo menção à cultura italiana que havia gerado o fascismo. Fumante, não admite ser fotografado tragando nicotina. Num vocabulário hermético e, por vezes prolixo, em dados estatísticos e informações acaba confundindo autenticidade com rispidez. Daí, embora seja o que mais deteste, ser comparado - convenhamos, injustamente - ao ex-presidente Fernando Collor em suas bravatas e factóides.
Politicamente seu erro tem sido polemizar em demasia com o candidato tucano, José Serra, e nas críticas ao presidente Fernando Henrique. Esta tarefa vem sendo desempenhada por Lula. Partindo-se do pressuposto que o petista já está no segundo turno, Ciro deveria se contrapor às propostas do PT e mostrar a sociedade o que pretende fazer caso seja eleito. A polêmica é essencial em qualquer eleição, afinal, é a partir do confronto de idéias que os eleitores devem avaliar o que pensa cada postulante. No entanto, todo excesso pode acabar transformando o candidato em senhor absoluto da verdade. Aliás, em respeito à verdade, vale questionar: por que o candidato Ciro Gomes omite no site do PPS, na Internet, quando expõe sua trajetória política, o fato de um dia ter pertencido a Arena, o partido que deu sustentação ao regime militar? Afinal, não vale a verdade?
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba.





