Em algumas ocasiões, vozes isoladas levantaram a preocupação com o avanço dos canaviais em terras produtoras de alimentos, no Brasil. No Norte do Paraná, que possui usinas açucareiras e alcooleiras, extensões consideráveis de terras roxas estão ocupadas com plantação de cana. Em sistema de equilíbrio e controle não haverá o que temer, mas a questão agora é novamente levantada, desta vez por diplomatas do Instituto Rio Branco, que questionaram o ministro da Agricultura a respeito, e por municípios que decretaram um limite para a o plantio da cana.
Essa comunidade diplomática, vinculada aos negócios da exportação de alimentos, declarou-se preocupada com uma possível transformação do cenário agrícola do País, justamente pela euforia de intensificar a produção de bioenergia. A pergunta específica é se não há o risco de o Brasil deixar de ser um grande produtor e exportador de produtos alimentícios e dar lugar a uma eventual ocupação mais intensiva de terras por cana e outras plantas geradoras de combustível automotor. Se existe esse questionamento no ar é porque há possibilidade aparente de ocorrer essa mudança de modelo agrícola - se não de imediato, de forma progressiva, face à demanda cada vez mais intensa pelo biocombustível, menos poluente e renovável, e pelo aceno de bons ganhos para o produtor.
No centro-oeste do Brasil a invasão dos canaviais já preocupa. Em Rio Verde (Goiás), o poder público municipal limitou o plantio de cana, e em Dourados (MS) os vereadores querem adotar a mesma medida. O problema não é apenas o temor da substituição de lavouras e pastagens pela cana - em regiões enriquecidas pela produção de grãos e carne - mas também a poluição ambiental pela queima da palhada dos canaviais, o que ocorre antes do corte. Uma contradição é que a cana gera combustível limpo, mas o processo de cultivo polui pela fumaça, e o fogo prejudica o solo.
O fato remete para algo mais grave e que deveria também preocupar esses diplomatas, assim como o Governo: o desestímulo de produtores de alimentos que derivam para o plantio de cana, pelo aceno de melhor rentabilidade. Se o Brasil não deve perder a oportunidade de produzir combustíveis alternativos - inclusive para atender à pauta da exportação - não pode negligenciar com a tradição que o fez campeão em produção alimentar.
O País não levará vantagem se perder nessa competição, mesmo com todo o êxito que venha a alcançar na produção de bioenergia. Uma regulamentação quanto ao uso da terra deveria ser implantada, porque há regiões com menor fertilidade para a produção de grãos e que se prestariam para a cana, menos exigente; e outras mais adequadas para a pecuária, para o reflorestamento, e assim por diante. O uso do solo agrícola não deveria ser aleatório mas previsto em legislação reguladora.

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